Cena

Zelda Fitzgerald: 125 anos da musa rebelde, ícone da geração perdida

24/07/2025 Gustavo Klein
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No dia 24 de julho de 1900, nasceu em Montgomery, no Alabama, Zelda Sayre. Filha de uma família tradicional do sul dos Estados Unidos, ela cresceu cercada por regras e expectativas — mas desde cedo mostrou que não estava disposta a seguir nenhuma delas. Ao lado do marido, o escritor F. Scott Fitzgerald, Zelda virou ícone da chamada “geração perdida”, viveu os excessos da Era do Jazz e deixou sua marca como artista, escritora e uma das figuras femininas mais fascinantes do século 20.

Zelda conheceu Scott em 1918, quando ele estava na cidade como tenente do exército. Ela tinha só 18 anos, mas já era conhecida pelo jeito irreverente, inteligente e nada convencional. O namoro foi intenso, e só virou casamento depois que Scott publicou seu primeiro romance, This Side of Paradise, em 1920 — um sucesso imediato. Com a fama repentina e o dinheiro entrando, eles se casaram e mergulharam num estilo de vida cheio de festas, viagens, manchetes e excessos.

Logo Zelda virou muito mais do que “a esposa do escritor famoso”. Com seu jeito provocador e moderno, passou a ser vista como a “primeira flapper” — um símbolo da mulher independente, de cabelo curto, roupas ousadas e que não se encaixava nas regras da época. Mas por trás da imagem pública, ela buscava algo mais: criar por conta própria. Escreveu contos e artigos (alguns publicados com o nome de Scott), pintava com cores fortes e traços expressivos, e por um tempo, mergulhou no balé com tanta dedicação que isso acabou afetando sua saúde.

Em 1929, aos 29 anos, Zelda treinava horas e horas por dia para tentar ser bailarina profissional. O esforço foi tanto que ela teve um colapso emocional. Em 1930, foi internada na Suíça e recebeu o diagnóstico de esquizofrenia — embora especialistas hoje acreditem que ela talvez tenha sofrido de transtorno bipolar. Durante esse período difícil, ela não parou de criar. Em 1932, escreveu seu único romance, Esta Valsa é Minha, que narra a história de uma mulher tentando conquistar seu espaço no mundo artístico enquanto vive à sombra do marido, disponível no Brasil em edição da editora Companhia das Letras.

A publicação do livro gerou um enorme conflito com Scott. Ele se irritou por ela ter usado passagens que ele considerava “material” para o seu próximo romance. De fato, meses depois, ele lançou Tender Is the Night, com uma história muito parecida — só que contada do ponto de vista dele. Era como se os dois disputassem não só espaço na vida real, mas também na literatura.

Depois disso, Zelda passou a viver entre internações em clínicas psiquiátricas e períodos curtos em casa. Continuou escrevendo e pintando, mas sua saúde mental foi se deteriorando.

Em 1940, Scott morreu em Hollywood, vítima de um ataque cardíaco, aos 44 anos. Zelda, então com 40, ficou viúva e cada vez mais isolada. Morreu tragicamente em 10 de março de 1948, aos 47 anos, quando um incêndio atingiu o hospital psiquiátrico em que estava internada, na Carolina do Norte.

Durante muito tempo, Zelda foi lembrada apenas como a mulher desequilibrada que inspirou os livros de Scott. Mas isso vem mudando. Hoje, suas cartas, pinturas e o próprio romance que escreveu são vistos com outro olhar. Ela não foi apenas uma musa — foi uma artista por si mesma, que lutou para ser ouvida num mundo que ainda não sabia lidar com mulheres que criavam, opinavam e queriam viver fora da caixinha.

Zelda também virou personagem em séries, livros e filmes. Em 2011, apareceu no cinema no filme Meia-Noite em Paris, de Woody Allen. Interpretada por Alison Pill, surge em meio à cena boêmia dos anos 1920, em Paris, ao lado de Scott e de outras figuras da época, como Hemingway e Gertrude Stein.

Hoje, 125 anos depois de seu nascimento, Zelda Fitzgerald continua sendo uma figura que intriga, inspira e provoca. Sua vida foi marcada por amores intensos, arte, sofrimento e uma busca constante por reconhecimento. Ela viveu em um tempo que oferecia liberdade às mulheres com uma mão e tirava com a outra. Mesmo assim, Zelda deixou seu nome registrado, não apenas como a companheira de um grande escritor, mas como uma artista que fez de sua própria vida uma obra complexa e memorável.