Cena

Fotógrafa santista exalta a beleza da mulher negra em exposição na ACS

15/07/2025 Isabela Marangoni
Divulgação/ACS

O que começou como uma homenagem virtual ao Dia da Consciência Negra, em 2020, se transformou em um potente movimento artístico e político de valorização da identidade negra. Esse é o caminho trilhado pelo projeto Africanitude 013, idealizado pela fotógrafa santista Dayse Pacífico, que agora ocupa o tradicional salão de mármore da Associação Comercial de Santos, na rua XV de Novembro, durante todo o mês de julho. Realizada pelo Conselho da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC), a exposição reúne 14 painéis fotográficos que celebram a força, a beleza e a ancestralidade das mulheres negras da Baixada Santista. A visitação é gratuita, de segunda a sexta-feira, das 8 às 18 horas, até o dia 31 de julho.

A primeira edição do projeto, intitulada Rainhas Africanas, nasceu em plena pandemia, com recursos mínimos e muita criatividade. Tecidos reutilizados viraram figurinos e cenários; o estúdio foi montado dentro de casa; e o apoio veio de amigas, colaboradoras e empreendedoras locais. O resultado foi uma mostra que desde o início carrega o DNA comunitário e afetivo. “O projeto nasceu da minha profunda admiração pela beleza da mulher negra e da urgência em combater a carência de representatividade em nossa sociedade”, afirma Dayse. “O Africanitude 013 representa a materialização de uma luta por visibilidade e empoderamento”.

A exposição integra a programação do Julho das Pretas, em alusão ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho. Com forte carga simbólica e narrativa, a mostra mergulha na essência do projeto. “Cada imagem é um convite a reconhecer a coroa que pulsa nas raízes africanas e afro-brasileiras, celebrando a identidade e a ancestralidade que fazem de cada mulher uma verdadeira rainha”.

HISTÓRIAS REAIS

As personagens retratadas nas edições do Africanitude 013 são pessoas reais, escolhidas por suas histórias e pela representatividade dentro da comunidade negra da região. “É um processo muito sensível, intuitivo e baseado na autenticidade. Cada edição nasce do desejo de explorar uma faceta específica da identidade negra, promovendo valorização, desmistificando estereótipos e criando diálogo”, explica Dayse.

Mais do que fotografias, o projeto atua como um registro vivo da memória afro-brasileira. “O Africanitude 013 se conecta diretamente com o pertencimento coletivo ao criar um ‘quilombo’ simbólico de resistência, acolhimento e celebração da nossa identidade. Cada foto, cada história e cada verso são formas de perpetuar a cultura e a força ancestral que nos une”.

FOTOGRAFIA COMO ATO POLÍTICO

Para Dayse, a arte é uma ferramenta poderosa na luta antirracista. “Como fotógrafa e, principalmente, como mulher negra, vejo a arte como uma das ferramentas mais potentes para denunciar injustiças e combater a invisibilidade, mas também para celebrar a beleza, a potência e a resiliência do nosso povo”.

Seu olhar fotográfico é atravessado pela formação acadêmica em História e Cultura Afro-Brasileira e por uma busca constante de consciência e responsabilidade estética.“Mesmo que as primeiras edições tenham nascido de uma inspiração mais intuitiva, esse aprofundamento teórico tem me ajudado a entender melhor os símbolos, contextos e nuances que desejo representar. Busco um olhar que seja não apenas bonito, mas também crítico e descolonizador”.

RAIZ COMUNITÁRIA

Desde sua origem, o Africanitude 013 mantém firme seu espírito colaborativo. “Eu idealizei o projeto, mas ele só ganhou vida com o apoio de pessoas fundamentais como a assistente de produção Thamirys Silva, a figurinista Marysol Santos e empreendedores locais que acreditaram na proposta”, destaca Dayse.

Mesmo com a profissionalização crescente, a conexão com o território permanece como prioridade. “Nosso foco é valorizar as narrativas da nossa comunidade, engajar pessoas locais nas produções e garantir que a arte continue sendo um espelho de reconhecimento e fortalecimento coletivo”.

Com sua lente sensível e engajada, Dayse Pacífico transforma imagens em instrumentos de memória, resistência e pertencimento — e convida o público a se reconhecer nas histórias e raízes que moldam a força da negritude na Baixada Santista.