
Victoria Abril completa hoje, 4 de julho de 2025, 66 anos de vida. Uma trajetória marcada por ousadia e paixão pela arte em suas diversas formas. Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, a atriz espanhola construiu um caminho singular, transitando entre cinema, televisão, música e, mais recentemente, teatro, sempre com a mesma entrega e intensidade que encantaram plateias ao redor do mundo. Ela é, ao lado de Rossy de Palma, Marisa Paredes, Carmen Maura e Verónica Forqué, a face do cinema de Pedro Almodóvar e do próprio cinema espanhol.
DANÇA E TELEVISÃO
Nascida em Madrid, Victoria Mérida Rojas iniciou sua formação artística no Conservatório de Dança de Madrid, dedicando-se ao balé clássico com disciplina e talento. Aos 14 anos, estreou na televisão no popular programa Un, dos, tres… responda otra vez, experiência que lhe proporcionou segurança diante das câmeras e despertou o gosto pelo palco.
Nos anos finais da década de 70, começou a se aventurar no cinema espanhol, acumulando papéis que prepararam o terreno para voos mais altos. Em 1980, destacou-se no filme Cambio de Sexo, de Vicente Aranda, no qual interpretou um jovem que decide mudar de gênero — um tema ousado para a época, que consolidou sua reputação como atriz corajosa e aberta a desafios.
ALMODÓVAR
A virada decisiva em sua carreira ocorreu com Pedro Almodóvar. Em Átame! (1989), Victoria interpretou Marina, uma atriz que é sequestrada por um fã obsessivo (Antonio Banderas). O papel projetou-a internacionalmente, marcando o início de uma colaboração fundamental.
Em Tacones lejanos (1991), deu vida a Rebeca Giner, uma apresentadora de TV com conflitos intensos com a mãe, num melodrama emocional que rendeu elogios e prêmios. Já em Kika (1993), Victoria interpretou a maluquíssima Andrea Caracortada, uma apresentadora sensacionalista com uma câmera acoplada à cabeça e o rosto parcialmente coberto por uma cicatriz, símbolo de uma crítica feroz ao voyeurismo e ao sensacionalismo televisivo.
Essa fase com Almodóvar consolidou sua imagem como uma atriz intensa, capaz de criar personagens complexas e inesquecíveis. A ligação artística entre os dois se manteve forte, mesmo depois de encerrada a colaboração oficial.
VOO INTERNACIONAL
Fora do universo almodovariano, Victoria construiu uma sólida carreira na França, onde se estabeleceu em 1982. Atuou em filmes de cineastas como Agnès Jaoui e Gérard Jugnot, além de Vicente Aranda, com quem trabalhou em títulos como Amantes (1991), que lhe rendeu o Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim. Recebeu também o Goya de Melhor Atriz por Nadie hablará de nosotras cuando hayamos muerto (1995).
Victoria transitou com naturalidade entre cinema autoral e projetos mais comerciais, sempre mantendo sua assinatura interpretativa forte e cheia de nuances. Ao longo das décadas, tornou-se uma das atrizes espanholas mais reconhecidas internacionalmente, admirada tanto pela crítica quanto pelo público.
MÚSICA
Além do cinema, Victoria cultivou uma paixão antiga: a música. Em 2005, lançou o álbum PutchEros do Brasil, um mergulho na bossa nova e em clássicos da música brasileira, incluindo canções de Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Chico Buarque. O disco revelou sua sensibilidade musical e seu desejo de explorar novas formas de expressão artística.
Antes disso, em 1979, ela já havia participado do Festival Eurovision da Canção, representando a Espanha. Embora o resultado não tenha sido marcante, foi mais uma prova de sua ousadia em buscar caminhos além do cinema.
TEATRO
Em 2024, Victoria retornou aos palcos espanhóis depois de 45 anos afastada. Foi a protagonista de Medusa, encenada no Festival Internacional de Teatro Clássico de Mérida. A peça ofereceu uma releitura feminista do mito da Medusa e permitiu que Victoria explorasse novos matizes interpretativos, recebendo críticas entusiasmadas e salas cheias.
O retorno ao teatro reafirmou sua disposição de se reinventar e de buscar novas linguagens mesmo após décadas de carreira. Em cena, demonstrou a mesma força e presença cênica que sempre marcaram seus personagens no cinema.
HOJE
Atualmente, Victoria divide-se entre Paris e Málaga. Em 2025, foi homenageada no Festival de Huesca com o Prêmio Luis Buñuel, reconhecimento ao conjunto de sua obra e sua importância para o cinema espanhol. Embora esteja mais seletiva nos trabalhos, segue ativa, priorizando projetos que privilegiam a qualidade artística e oferecem desafios interpretativos.
Sua parceria com Almodóvar permanece como um marco. Para ele, Victoria era a síntese perfeita da mulher complexa, contraditória, forte e frágil ao mesmo tempo — um reflexo do universo feminino que tanto inspirou seu cinema. Para ela, Almodóvar foi o diretor que lhe deu liberdade plena para explorar personagens em suas dimensões mais profundas e contraditórias.
Ao completar 66 anos, Victoria Abril continua sendo muito mais do que uma musa de um cineasta: é um ícone de vitalidade artística, uma mulher que se recusa a caber em moldes e que segue fascinando plateias, seja no cinema, no teatro ou na música. Sua trajetória confirma que a arte não tem prazo de validade — e que o talento, quando aliado à coragem, é capaz de atravessar décadas e continuar surpreendendo.


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