Cena

Vera Leon amplia a linguagem onírica com Oficina dos Sonhos

02/07/2025 Isabela Marangoni
Fernando Yokota

Você costuma lembrar dos seus sonhos? Consegue reviver com detalhes as imagens e histórias criadas pelo seu inconsciente durante a noite? Para a jornalista e especialista em psicologia analítica Vera Leon, esse universo onírico é uma fonte inesgotável de sabedoria, autoconhecimento e resistência à superficialidade do mundo moderno — e será o tema de sua próxima Oficina dos Sonhos, no dia 7 de julho, das 15h às 18h30, na Pinacoteca Benedicto Calixto.

Para Vera, o sonho é uma espécie de mensageiro interior, uma bússola que orienta o ego nos momentos mais delicados da vida. Seu contato com a abordagem junguiana, inspirada na obra de Carl Gustav Jung, teve início há mais de 30 anos, durante um processo terapêutico. “A teoria junguiana me fascinou imediatamente. Era como se falasse diretamente com minha alma. Esse universo onírico sempre fez parte da minha natureza”, revela.

Nos anos 1990, em meio a uma crise pessoal, sua conexão com os sonhos se intensificou. “Passei a lembrar deles todas as noites. Peguei um caderno vermelho — que parecia até o ‘Livro Vermelho’ do Jung — e comecei a anotar tudo. Escrevia o sonho e depois dialogava com ele, tentando compreender o que queria me dizer”, conta Vera. Era uma prática informal, fora do ambiente terapêutico, que se tornou um mecanismo instintivo de sobrevivência emocional. “Os sonhos surgiam como uma reação da alma diante da dor, uma forma de me orientar quando tudo parecia confuso”.

SONHAR PARA VIVER

Com o tempo, Vera percebeu que os sonhos não apenas refletiam seus conflitos, mas a impulsionavam a grandes transformações. Um deles, em especial, indicou a decisão de deixar Santos para trabalhar em Brasília, onde atuou em três ministérios durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. “Sonhei que estava no cais do porto, cercada por trilhos, diante de um menino. Perguntei ‘Pra onde eu vou?’ e não tive resposta. Era um símbolo de transição”. Poucos dias depois, sonhou subindo uma escada com pastas nas mãos, chegando a uma sala para sentar-se ao lado do então presidente. E assim foi: pouco tempo depois, já estava em Brasília, vivendo aquela nova etapa.

TRADUÇÃO DOS SONHOS

Para Vera, decifrar um sonho não é decodificá-lo como um horóscopo ou receita pronta. “O sonho é do sonhador. Só ele pode dizer o que cada símbolo significa para sua vida”. Ela compara a linguagem dos sonhos a cartas em língua estrangeira. “No começo, você não entende nada. Com o tempo, aprende a traduzir palavra por palavra. É um processo de intimidade com o inconsciente”.

RESISTÊNCIA SIMBÓLICA

Hoje, Vera observa com preocupação o distanciamento das pessoas do seu mundo interior. “Vivemos em estado de alerta constante: luzes acesas, celular na hora de dormir, excesso de estímulos. Perdemos a higiene do sono e, com isso, a conexão com o inconsciente”. Para ela, recuperar esse contato é uma forma de resistência simbólica. “Sem um eixo interno forte, ficamos vulneráveis à superficialidade, às promessas mágicas e distrações vazias”.

OFICINA NA PINACOTECA

Com anos de experiência em grupos terapêuticos e análise de sonhos, Vera traz a Oficina dos Sonhos, que oferece uma introdução acessível à psicologia junguiana. Conceitos como ego onírico, self, ânima, ânimus e símbolos serão explorados para que cada participante possa olhar para seu sonho e se perguntar: quem sou eu dentro do sonho? Estou observando ou agindo? Conheço essa figura que aparece? Se não, ela representa um aspecto do meu inconsciente.

Além disso, Vera ajuda a lidar com dúvidas comuns sobre símbolos oníricos — como sonhos de voar, cair, encontrar pessoas falecidas ou com água. “Mas é importante notar: que tipo de água é essa? Limpa, turva, uma piscina, um rio, o mar? E você, está dentro ou fora dela? Nadando ou se afogando? São detalhes que revelam uma riqueza enorme”.
Ela incentiva a criação do “sonhário”, um diário para registrar até mesmo fragmentos vagos. “Não precisa de muito, se você lembra de apenas uma pessoa, um lugar, se era dia ou noite. Qualquer coisa já é um começo”.

A oficina acontecerá na Pinacoteca Benedicto Calixto, com capacidade para 80 pessoas. As inscrições estão abertas até sexta-feira (4) pelo e-mail [email protected]. O investimento é de R$ 130.

Além da oficina, Vera realiza atendimentos terapêuticos individuais focados em sonhos. “Tenho pacientes que chegam com sonhos recorrentes e, ao explorá-los, descobrem o que lhes falta emocionalmente. Muitas vezes, o sonho avança mais rápido que sessões tradicionais de terapia”. E sobre os pesadelos, ela explica que funcionam como alertas do inconsciente. “São sinais de que algo está errado… é o inconsciente dizendo: ‘Acorda pra sua vida. O ego é teimoso, mas o corpo responde”.

Apaixonada pelo tema, Vera reforça que interpretar sonhos é uma construção pessoal. “O sonho é um filme em que você é roteirista, personagem e espectador. Não há interpretações universais, apenas seu repertório de vida — e isso dá sentido. É um caminho mais seguro para caminhar”.

 

SERVIÇO
Quando: 7 de julho, segunda-feira
Horário: das 15h às 18h30
Onde: Av. Epitácio Pessoa, 100 – Ponta da Praia
Contribuição: R$ 130,00
Inscrições pelo e-mail: [email protected]