Cena

Morre aos 80 anos Eduardo Caldeira, um ícone da cultura santista

23/06/2025 Gustavo Klein
Morre aos 80 anos Eduardo Caldeira, um ícone da cultura santista | Jornal da Orla

Morreu na madrugada desta segunda-feira, em Santos, aos 80 anos, o empresário, agitador e produtor cultural Eduardo Caldeira. Um dos grandes nomes da noite santista, Eduardo comandou casas que marcaram época, como o Bar da Praia, ponto de encontro da intelectualidade local que tinha programação bastante eclética, marcada especialmente pela Bossa Nova, MPB e jazz. Por lá passaram artistas como Johnny Alf, Arismar do Espírito Santo e Dori Caymmi.

Por sua personalidade sempre muito amigável, teve muito mais do que clientes e parceiros: teve amigos. Alguns dizem, até, que Eduardo era amigo de todos os santistas. O músico Johnny Alf compôs uma música em homenagem ao Bar da Praia em que cita a cidade de Santos e o próprio Caldeira. A letra tem trechos como “Bar da praia, Santos SP… Reduto Musical… Fui diversificar meu humor… No Bar da praia, Santos SP… Caldeira percebeu… Que a minha inspiração gerou você”.

Além do Bar da Praia, Caldeira esteve à frente de casas como o Barnabé e o Reciclagem. Também criou o Pasteleco (no Parque Balneário) e comandou iniciativas culturais inesquecíveis como o Conversa de Botequim, evento que nasceu no próprio bar, passou pela Piola e chegou à Pinacoteca Benedicto Calixto.

VAZIO CULTURAL
O falecimento de Eduardo deixa um vazio na cultura de Santos. A jornalista Ivani Cardoso, amiga pessoal de Eduardo e de sua eterna namorada Mônica, lamenta a partida do amigo. “Eu perdi mais do que um amigo muito querido. Perdi um parceiro da minha história de vida. Com ele e Mônica realizamos festas históricas como do cinema e TV. Eduardo do olhar afetivo, abraço gostoso, das palavras certas. Fez dos seus bares, principalmente o Bar da Praia um espaço de encontros, conversas, boa música e alegria. Vivemos tempos inesquecíveis nas Conversas de Botequim”.

Ivani fala também da força da história dos lugares idealizados por Eduardo e que fazem parte da história cultural da cidade. “Ele sabia como ninguém escolher programação de qualidade. Johnny Alf fez música para ele. Nana Caymmi adorava Edu, os músicos o respeitavam demais. Até Joãozinho Trinta ele trouxe para falar no Bar da Praia” Caldeira era a grande magia da noite santista. Sei que ele fez um sacrifício para ir ao lançamento do meu livro em maio, só ia ficar um pouquinho e foi ficando, tomou dois chopes e encontrou pessoas que gostava muito. Eduardo não deixa um vazio, deixa uma multidão que teve o privilégio de conviver com ele”.

Vice-prefeita de Santos, a também jornalista Audrey Kleys se lembra com carinho de Eduardo em um outro momento da vida de ambos. “O querido Eduardo Caldeira faz parte da história de Santos e da vida de milhares de santistas! Em especial da minha porque a minha tia trabalhava na loja de sapatos Ferragamo, no Parque Balneário, e quase todos os finais de semana a minha mãe levava as filhas para dar um beijo na tia e já era tradição comer no Pasteleco, que ficava bem ao lado da loja! Eduardo foi um dos primeiros a inovar e investir nos pastéis de diferentes sabores e tamanhos! Isso jamais sairá das minhas memórias de criança”.

O empresário e ex-presidente da Fundação Pinacoteca Benedicto Calixto, Geraldo Pierotti lembra da figura humana ímpar que era Eduardo. “Era uma grande figura humana, gentil, elegante e extremamente afável e generosa, que apreendi a admirar desde os bancos da nossa Faculdade Católica de Direito, onde fomos contemporâneos. Por tudo isso, deixa uma lacuna difícil de ser preenchida. Descanse em paz, querido Eduardo Caldeira. Hoje tem música boa e intimista no Bar do Céu!

Jornalista, José Carlos Silvares conta que conheceu a esposa, Marta, no Bar da Praia, ne véspera de seu aniversário. “A conheci no Bar da Praia, eu a convidei para o meu aniversário, ela foi. E acabou que a gente acabou casando. O Eduardo e a Mônica foram no casamento. Nós frequentamos muito o Bar da Praia, quase todas as noites, por causa disso. O Eduardo e a Mônica sempre se sentavam. O nosso encontro, como de muitos outros casais que se encontraram lá. E o Eduardo sempre foi uma pessoa fantástica, na área cultural, entretenimento, gastronomia. Ele sempre foi muito inventivo, muito muito pra cima uma pessoa sempre comprometida com a boa música, com o jazz e a bossa nova”.

O jornalista Luis Dias Guimarães, amigo de décadas, lembrou a importância do empresário com poesia: “Por muito tempo o Edu propiciou a mim, e a tantos, o palco para amplas fantasias. Em suas casas eu me espraiava nas noites cheio de alegria, cultura e paixões. Era um alvoroço só. No Bar da Praia criamos juntos a célebre Conversa de Botequim, que reunia todas as espécies. De um Milton Teixeira a Maurice Legeard, passando por Carlos Manente. Era a república de uma Santos que se juntava à noite na buliçosa vida santista. Enquanto eu fazia flores de guardanapo, comia um Zé Te Adoro e sonhava com a noite seguinte. Valeu, Edu”.

Para o jornalista Edison Carpentieri, “Santos amanheceu triste”. Ele destacou: “Eduardo Caldeira entrou para a história da cidade como um dos maiores incentivadores da arte e da cultura, estimulando debates com jovens, intelectuais, professores universitários, empresários. Era a personificação da alegria e do progresso. Enxergava além do tempo. O Bar da Praia marcou época e foi o retrato dos anos dourados de Santos. Eduardo deixa um legado de honradez, alegria e felicidade, virtudes que dão sentido à vida humana. Descanse em paz. Você merece”.

O escritor Flávio Viegas Amoreira destacou o charme de Caldeira: “Eduardo foi um personagem hollywoodiano: a elegância encarnada nos trópicos. Sempre me soou como Bogart à porta do Rick’s Bar de Casablanca: agregador, antenado, um dos personagens vitais para recuperarmos nossa autoestima perdida nos anos de chumbo. Ajudou muita gente, inclusive este poeta em início de carreira”.

A presidente da Academia Santista de Letras, Taís Curi, afirmou: “Santos sofre hoje uma de suas maiores perdas no campo da vida cultural noturna. Eduardo Caldeira, com seu espírito agregador e seu conhecimento em música e arte, construiu ao longo dos anos um ambiente tão propício ao encontro de amigos e apreciadores que dificilmente será substituído. Guardo dele as melhores lembranças, especialmente a gentileza com que tratava a todos”.

Amigo de longa data, o músico Julinho Bittencourt brinca com a imagem de Caldeira. “Com ele não colava aquela história de que quem gosta de beleza interior é decorador. O Eduardo foi considerado, em certa época, o homem mais bonito de Santos. E tudo o que ele fazia era muito bonito, também, muito lindo”. Julinho destaca também a inovação que era uma das marcas de Caldeira. “Os bares, os negócios que ele teve, tinham essa marca, da inovação. Sempre tinha um prato diferente, que ele batizava, tinha nome, ficava conhecido”.

O Conversa de Botequim, evento cultural que movimentou a cidade durante décadas, também é destacado por Julinho. “Se a gente pensar bem, foi pioneiro, um programa de entrevistas ao vivo, com personalidades, que marcou época. Era um cara que mexia com a cidade e “subia o sarrafo” porque tudo o que ele fazia tinha muita qualidade.

O jornalista Antônio Marques Fidalgo reforçou a importância do Bar da Praia: “Eduardo foi um desbravador da noite santista. Seu auge foi o Bar da Praia, admirado não só pelos frequentadores da região, mas também por turistas. Noitadas boêmias com muita cultura, gastronomia de primeira, resenha e alegria. Um legado do amigo de todos”.

Artistas que tiveram suas primeiras oportunidades nas casas noturnas de Eduardo Caldeira também se manifestaram. A cantora Mariana Azzi destacou sua personalidade. “Um cavalheiro, melhor anfitrião que já conheci , uma honra ter começado a cantar no Barnabé”. Tite Franco lamentou a partida de Eduardo. “O cara que me colocou na cena musical santista…Uma perda irreparável para a Cultura Zero Treze”.

Nanci Alonso, do Gapa, também destaca o parceiro valioso que sempre encontrou em Eduardo. “Um amigo de muitos anos, sempre à frente do seu tempo. Nos ajudou muito no início do Gapa, cedendo o espaço do Bar da Praia para nossos eventos, desbravando o preconceito que ainda existia. Um caminho de bondade e muita luz”.

Outros amigos também se manifestaram sobre a partida de Eduardo Caldeira. O produtor cultural Jamir Lopes diz que Eduardo Caldeira sempre foi um farol, um incentivador das artes e a minha principal referência em Santos no campo da cultura. “A cidade amanheceu mais triste, bruta e cafona sem a presença do admirável amigo Edu”. O psicólogo Arlindo Salgueiro lembra o Bar da Praia. “Era o recanto da Bossa nova e das ideias progressistas da nossa cidade ! A partida de Eduardo Caldeira nos deixa empobrecidos. Ele marcou gerações com seus ideias e seu exemplo”. O radialista Zerri Torquato também celebra o legado de Caldeira. “Um grande empreendedor e, acima de tudo, uma pessoa extraordinária! Deixa uma grande lacuna”.

O prefeito de Santos, Rogério Santos, lamentou a morte de Eduardo Caldeira e ressaltou sua importância para a cultura local: “O Caldeira representa a cultura santista no sentido mais amplo. A cultura acessível a todos, a boa música, a boa gastronomia, o empreendedor que investiu no entretenimento, nos grandes bares que fizeram tanto sucesso. Fica a saudade de muita gente que frequentou o Bar da Praia, um símbolo da cidade”.

A Secretaria de Cultura de Santos também emitiu nota lamentando a partida de Eduardo Caldeira. O secretário Rafael Leal diz que “a história da cultura em Santos nas últimas décadas tem a marca de Eduardo Caldeira, em diferentes e importantes momentos”.

E como o momento permite, eu Gustavo Klein, que escrevo entristecido esta reportagem/homenagem, deixo aqui também o meu depoimento, muito pessoal, sobre Eduardo Caldeira, um dos caras mais doces que conheci e que, além de todo o legado que ele deixa na cultura santista – e que precisa ser respeitado e honrado – tem para mim alguns significados a mais.

Edu era vizinho de porta do meu pai e fez parte da vida dele, com uma amizade muito bonita e com alguns episódios até engraçados. Esteve ao meu lado em um dos piores momentos da minha vida, quando descobrimos que meu pai havia falecido, e com sua presença que inspirava, me manteve tranquilo. Por isso e por tanto mais que ele realizou, sou grato e por ele tenho profunda admiração.

Acima, Eduardo com a esposa, Mônica Mathias, e seu fiel escudeiro, o cachorrinho Benjamin, o Ben. Ele deixa a esposa, Mônica Mathias, sua companheira de vida e de aventuras, e dois filhos e três netos. O corpo de Eduardo Caldeira será velado na Beneficência Portuguesa de Santos das 18 à meia-noite de hoje. Posteriormente, será cremado, em cerimônia restrita à família, em Jacareí-SP.