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O livro das semelhanças

21/06/2025 Rafael Medeiros
O livro das semelhanças | Jornal da Orla

A Folha de São Paulo organizou uma lista com os vinte e cinco melhores livros brasileiros do século XXI.  Para elaborá-la, foram convidados cem especialistas do nicho literário. Nomes conhecidos de toda gente aparecem no rol de notáveis: Itamar com seu Torto Arado, Ana Maria Gonçalves encabeçando a lista com Um Defeito de Cor, o bem-conceituado O Avesso da Pele de Jeferson Tenório. O Livro das Semelhanças, objeto desta coluna, desponta ranqueado num considerável sétimo lugar.

Composto em versos livres (sem preocupações com metrificações e rimas), este pequeno livro de poemas é todo sensibilidade. Alternando entre o real e o simbólico, carregado por interessantes intertextos e iluminando belíssimas imagens, Ana Martins Marques cativa o leitor com o seu repertório delicado e inteligente. O volume, graciosamente iniciado por um capítulo intitulado “Ideias para um livro”, abre-se em quatro partes: “Livro”, “Cartografia”, “Visitas ao Lugar-Comum” e “O Livro das Semelhanças”. Uma lírica muito original perpassa todas as seções da obra para falar diretamente com o coração de quem a lê.

Expoente da literatura contemporânea nacional e produtora de uma poesia altamente qualificada, Ana Marques orquestrou suas pequenas peças de forma a causar identificação e comoção. Talvez por isso a própria autora anuncie: “Ainda que não te fossem dedicadas / todas as palavras nos livros / pareciam escritas para você”.

Motivos para ler:

1- Ana Martins Marques, mineira de Belo Horizonte, é graduada em Letras e doutora pela UFMG. Foi com alegria que vimos o seu Livro das Semelhanças aparecer entre os 10+ da lista da Folha. Merecidíssimo. Dela também recomendamos “Da arte das armadilhas” e “Risque esta palavra”;

2- O que mais nos agrada na poesia de Ana é a acessibilidade. Ler poesia, a depender do referencial, pode parecer difícil e até mesmo incompreensível. De fato – e sem embargo do reconhecido talento -, ler Pablo Neruda, p. ex., é uma experiência estranha e, no grande geral, pouco inclusiva. Apesar de nossa incipiente incursão no terreno da poesia – preferimos os romances -, já identificamos, numa percepção muito mais íntima do que técnica, que a poesia feminina é mesmo mais interessante. Desculpem os senhores poetas, mas a poesia, com elas, é melhor;

3– O Livro das Semelhanças poderia ser lido em menos de uma hora. Poderia, mas não convém. Se nos for permitido um conselho, diríamos para o leitor percorrer o livro com vagar para melhor desfrutar de tudo que nele habita. É um pequeno grande livro que merece uma leitura acalentada e atenciosa.