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Mar morto

24/05/2025 Rafael Medeiros
Mar morto | Jornal da Orla

O enorme João Ubaldo Ribeiro certa vez disse, de forma muito feliz, que a Bahia foi inventada por Jorge Amado. É mesmo isso: foram pelas bem traçadas linhas de Jorge que a belíssima mitologia da Bahia de Todos-os-Santos e de todo o Recôncavo Baiano ganhou forma e conteúdo e conquistou o mundo.

Mar morto é vivido sob a lei muito própria da beira do cais da Bahia. Todos ali vivem do mar e para o mar. Gerações se sucedem, vidas se cruzam e se entrecruzam, amores começam e terminam, pequenas felicidades e grandes tragédias se anunciam, e tudo segue como sempre foi: a vida pobre dos velhos que ensinam os novos a andar sobre o mar com seus saveiros enquanto suas mulheres aguardam, em agonia, o retorno de seus homens do mar venturoso.

Jorge fez de tudo neste romance: transformou o cais num lírico personagem vivo e pulsante, introduziu todo o bonito sincretismo religioso baiano nas águas do mar bravio, criou personagens inesquecíveis, revelou a difícil peleja dos trabalhadores e fechou a tragédia com toque de ouro. A par de tudo isso, Mar morto é também e sobretudo a fusão do grande amor de Guma e Lívia com a força de uma natureza imprevisível que ora entrega um mar reluzente de estrelas para mais tarde revolver suas águas com tubarões e tempestades.

Belíssimo, Jorge.

Motivos para ler:

1- Jorge Amado (1912-2001) dispensa apresentações. Há muitos motivos para o brasileiro se orgulhar de sua pátria, e a literatura brasileira é, sem dúvida, um deles. Seus livros foram vertidos para o teatro, cinema e TV com enorme sucesso. O universo amadiano é mesmo uma das grandes joias da cultura brasileira. Sugerimos apreciar sem moderação;

2- Apesar do ambiente absolutamente masculinizado do cais, são as personagens femininas que dão o verdadeiro deslumbre ao romance: a professora Dulce com sua profecia, a intrépida mulata Esmeralda, a destemida Rosa Palmeirão com seu comovente pedido e, claro, Lívia. Esta última, aliás, tomará para si a função heroica do romance com absoluta propriedade. Algumas cenas protagonizadas por essas mulheres são de uma beleza tristíssima que chegam à perfeição;

3É conhecido o belo amor vivido por Jorge e Zélia Gattai. São dela estas doces palavras sobre Mar morto: “Mar morto foi o primeiro livro de Jorge Amado que li. Li e adorei a história de amor passada no mar da Bahia, um romance que faz sonhar, cheio de poesia. Eu estava longe de imaginar que um dia conheceria o autor, que por ele me apaixonaria, que seria por ele amada e que, juntos viveríamos 56 anos de puro e verdadeiro amor.”