Cena

Um mundo de belos instantes no olhar de Biga Appes

07/04/2025 Gustavo Klein
Divulgação

O olhar de Biga Appes é captura instantes e também imagens cheias de alma. Em seus 35 anos de trabalho sempre inspirado, ela construiu uma trajetória que conta uma história íntima, coletiva e profundamente sensível. Ela celebra este tempo com a mostra “O tempo em mim”, que fica em cartaz até o dia 30 de abril no Museu da Imagem e do Som de Santos (MISS), dentro do Centro de Cultura Patrícia Galvão.

A própria artista define a mostra como uma Ocupação Fotográfica. São obras novas e mais antigas, coloridas e preto e branco, expostas em suportes diversos – quadros, tecidos, monóculos, álbuns artesanais, mostruários, e até mesmo diretamente nas paredes, na forma de lambe-lambes. A variedade de formatos mostra a essência da artista, que faz da experimentação uma das marcas de seu trabalho.

Seu olhar é carinhoso, atento ao cotidiano e às pessoas – mulheres, crianças, territórios periféricos e as forças sutis da natureza. “A fotografia me ensinou que a beleza tem várias formas. Eu brinco que saio pra catar gente porque é uma amizade que acontece ali. Quando elas se sentem à vontade com a minha câmera, a sessão se transforma em uma troca, é como um abraço”, conta.

O clique

Para Biga, a fotografia é mais do que técnica: ouvir e se impulsionar pela intuição. Descreve aquele momento do clique como sendo quase místico. “Aquele milésimo de segundo me dá a sensação de um mergulho no mar e a volta para a superfície com alguma descoberta”, avoa. “É fascinante quando aquilo que você imaginou se concretiza em uma imagem fotográfica.”

Esta busca por conexão entre imagem e sentimento começou nos anos 1990, quando ela fez sua estréia no fotojornalismo. Em um período em que houve poucas mulheres trabalhando na imprensa, sobretudo em Santos, Biga abriu escritórios e publicou nas publicações como O Globo, Diário do Litoral, Jornal da Orla e a agência de notícias da O Estado de S. Paulo. Trabalhou com filmes em preto e branco, revelados à mão em laboratório, e com a sensibilidade que sabia que cada clique tinha que ser fundamental.

Foi também através do jornalismo que acompanhou a visita de Nelson Mandela ao Brasil, trabalhando como fotógrafa da Casa de Cultura da Mulher Negra – momento que marcou o início de profunda influência em sua carreira.

Fotografar como ato político e poético

Com o passar do tempo, o interesse de Biga passou a girar em torno de questões de cunho social, cultural e ambiental. Ela capturou movimentos do Movimento Nacional de Homens e Mulheres Crianças de Rua, da ONG Médicos del Mundo e do projeto internacional Guerreiros sem Armas. Também manteve à vista obras de artistas independentes, grupos de teatro, dança, música e cultura popular, como no caso da captura da Bienal de Dança de Santos, e encontros da Cultura Caiçara.

Sua perspectiva ultrapassou fronteiras. O ensaio “Flores Loucas”, sobre mulheres em tratamento psiquiátrico na periferia de São Vicente, foi concebido em Cuba, no Encontro Internacional de Mulheres (1998). Depois, no ano seguinte, foi a única sul-americana selecionada para a Mostra Internacional de Fotografia Humanitária Luis Valtueña, na Espanha, com imagens sobre catadores do lixão de São Vicente.

Ela também teve trabalhos inseridos em livros e exposições como África em Nós (Museu África Brasil) e Direitos Humanos – Aqui e Agora, além de integrar projetos culturais e ambientais no litoral da Bahia e no Santuário de Abrolhos.

Da rua para as telas – e das telas para a cidade

Nos últimos anos, Biga se dedicou à documentação de produções audiovisuais. Fotografou os bastidores da websérie Nossa voz ecoa, da cantora Preta Rara, e teve suas imagens projetadas no espetáculo Ida, do Coletivo Negro. Em 2019, lançou o projeto Vou sair pra catar gente, colando retratos pelas ruas de Santos – uma forma de devolver os rostos à cidade, de tornar visível o invisível.

O projeto evoluiu para um documento feito à mão pelas mãos de sua filha, Cibele Appes, e ganhou, em 2020, um prêmio nacional de exibição pela TV Câmara. Em 2021, Biga foi um dos artistas selecionados para participar da exposição PORTOS, promovida pelo Sesc. Mais recentemente, documentou o filme Salga, uma expedição alimentar pela costa, abordando conhecimentos tradicionais sobre alimentação e identidade cultural no litoral paulista.

Exposição

A exposição “O tempo em mim” é uma homenagem ao tempo vivido, às imagens recolhidas e às histórias partilhadas. É também um convite à contemplação. No MISS, cada canto da mostra é um recorte do mundo visto pelos olhos de Biga – olhos que enxergam poesia no quotidiano e transmitem encontros para a arte.

Se a câmera é sua extensão sensível, o espaço expositivo se torna, agora, o seu lar por um mês. E o visitante, quem sabe, sai de lá também com a sensação de ter mergulhado e voltado à superfície com alguma descoberta.