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Reparação

05/04/2025 Rafael Medeiros
Reparação | Jornal da Orla

Todas as atitudes, decisões e posturas que assumimos geram consequências. Há acumulação. Há responsabilidade. Por vezes, tudo pode se tornar imperdoavelmente irreversível. Em Reparação – o livro fundamental do laureado Ian McEwan -, a dramática escalada de eventos criada pela imaginação de uma jovem de 13 anos provocará um mal inominável para toda a sua família. Ressentimento, mentira, covardia e o esforço para reparar uma brutal injustiça compõem as notas essenciais deste romance devastador.

A trama apresenta uma boa família inglesa no verão de 1935. Nela cresce a pré-adolescente Briony, uma inteligente menina que deseja se tornar escritora. Ao presenciar uma cena inusitada entre sua irmã mais velha e um amigo de infância, Briony, perdida em devaneios de sua própria cabeça, resolve intervir. Ao fazê-lo, pratica uma sucessão de enganos que culminará num crime com resultados avassaladores para todos à sua volta.

Será apenas no sofisticado epílogo, quando uma já idosa Briony assume a narrativa do livro, que o leitor enfim encontrará a revelação e, estarrecido, passará toda a história em perspectiva para confrontá-la com a verdade recém-descoberta. Um romance fino, belíssimo, estruturalmente perfeito e, repetimos, devastador.

Motivos para ler:

1- O britânico Ian McEwan é um dos escritores vivos mais reverenciados, lidos e traduzidos no mundo. Multipremiado – dentre tantos, o honroso Man Booker Prize -, escreveu muito e escreveu bem. Dele já analisamos, nesta coluna, o excelente Na Praia. Reparação é frequentemente apontado como sua obra-prima;

2 – O livro rendeu uma adaptação extraordinária para o cinema. Desejo e Reparação contou com um grande elenco (James McAvoy, Keira Knightley e Vanessa Redgrave) e traduziu o drama com muita fidelidade. Além das grandes atuações, a icônica cena de take único na praia de Dunkirk – eis aqui um famoso episódio da 2ª Grande Guerra – conta com um dos temas musicais mais bonitos e tristes já escritos: Elegy for Dunkirk. Sugerimos ouvir o tema na interpretação do talentoso Jeff Beck: ali, ele tocou a beleza absoluta;

3 – Já dissemos noutras oportunidades: a literatura é muita coisa. Poderia ser também um meio de reparação para um mal terrível? Briony, ofuscada por uma paixão infantil, certa de que estaria protegendo sua irmã e orgulhosa por toda a atenção que o mundo adulto lhe emprestou quando construiu sua falseada narrativa, praticou um crime horroroso. Devotou sua vida adulta a reparar esse mal. Se houver perdão possível, que julgue o leitor.