
Surfando na onda do sucesso de Ainda Estou Aqui na temporada de premiações, Vitória chegou aos cinemas na última quinta-feira (13). O 12º longa do diretor carioca Andrucha Waddington conta a história, baseada em fatos reais, de Joana da Paz, uma idosa de 80 anos, moradora da comunidade da Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana, no Rio de Janeiro, vivida por Fernanda Montenegro, que decide enfrentar o crime organizado crescente na região que passa a atormentar sua rotina.
A protagonista passa a registrar, da janela de seu prédio, com uma câmera, a movimentação de traficantes de drogas do local durante meses, e acaba descobrindo a verdade suja da corrupção policial. A ação chama atenção de Fábio Gusmão (Alan Rocha), um jornalista policial, que começa a ajudar Joana.
Se a proposta soa como um aceno ao voyeurismo de Alfred Hitchcock e Janela Indiscreta, a narrativa vai por outro caminho, apoiando-se no apelo de explorar a vizinhança de forma romantizada, mostrar o aconchego que o lugar representa para a protagonista, e como tudo é poluído pela chegada dos criminosos. Mas isso fica só no conceito.
O filme tem dificuldade para articular essa ideia, que envolve construir a imagem com uma mise en scéne mais evidente, com os objetos da cena bem posicionados na tela. O relacionamento da protagonista com as pessoas do bairro fica limitado a pouquíssimas cenas no mercado, cassino clandestino ou numa dança com a amiga do prédio, só que tudo é filmado de modo muito pragmático, comedido.
A importância daquele lugar não se reflete nunca na forma como a personagem vivencia aquele espaço, e sim nas histórias que ela conta da família. O filme é muito ilustrativo e pouco imagético. Quase anti cinematográfico em diversos momentos. Um mal bastante comum de um cinema que cada vez mais se enxerga com a missão de informar jornalisticamente. A mensagem pela mensagem.
A dissonância acontece porque, ao mesmo tempo em que a relação com as pessoas do bairro não é aprofundada e o filme quer criar uma proximidade entre Joana e a comunidade, alguns planos colocam a personagem sendo sufocada nas ruas. Uma leitura que aborda o papel dela em meio a toda essa engenharia opressiva de corrupção e violência.
A dramatização se limita muito à ótima atuação de Fernanda Montenegro. A ideia de colocar os criminosos à distância, criando uma mística na relação da personagem com os “vilões” da história, é interessante do ponto de vista narrativo, abordando uma superficialidade que vem da maneira como parte da sociedade enxerga a justiça. O filme traça a possibilidade de explorar a história a partir dessa ingenuidade da protagonista, mas deixa isso de lado, muitas vezes até mesmo quebrando a lógica desse distanciamento do observador – que causa esse debate pra início de conversa. Faz isso tanto com planos que cortam esse sentido, como com a cena anticlimática do sequestro.
Isso incomoda porque parece que o filme enxerga um bom ângulo e boas alternativas, mas não investe nisso. A história termina sem um clímax. A obra se perde no meio do caminho com a falta de um direcionamento.
Por trás de toda essa narrativa, existe uma boa história para ser contada, mas o filme não sabe transformar isso em cinema. Parece querer explorar alguns casos chocantes apenas jogando tudo na tela. A expectativa circula o filme, mas ele nunca chega a lugar algum.
O sucesso nas bilheterias é a boa notícia. No primeiro final de semana, o longa arrecadou R$ 4,7 milhões. Cerca de 218 mil pessoas foram às 650 salas de exibição espalhadas pelo país para assistir Vitória entre quinta-feira e domingo, segundo dados da Comscore e Filme B. Os números colocam o filme em destaque como a maior estreia de um filme nacional em 2025, e mostram um cinema brasileiro cada vez mais abraçado pelo público. n



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