Política

Uma guerra brasileira, com vitória dos derrotados

09/07/2025 Marco Santana
Uma guerra brasileira, com vitória dos derrotados | Jornal da Orla

As singelas estátuas de anjos, na Fonte 9 de Julho, em pleno Gonzaga, contrastam com a dureza do conflito que foi a Revolução Constitucionalista, iniciada em um sábado de 1932. Foi nessa data que um movimento armado e extremamente organizado tomou o controle de pontos estratégicos do estado de São Paulo, como estações de trem, trevos rodoviários, estações de rádio, telegráficas e telefônicas. Boa parte dos profissionais das armas (a Força Pública e unidades do Exército) aderiu ao movimento. Era uma resposta ao comportamento de Getúlio Vargas, que havia sinalizado para um lado e virado para outro. Para entender melhor esta história, é preciso voltar dois anos antes.

PROMESSAS E GOLPE

Em 1930 foi realizada uma eleição para escolher o sucessor do então presidente da República, Washington Luiz, que estava extremamente fragilizado no cargo, por conta da crise econômica de 1929. Derrotado nas urnas, Getúlio Vargas deu um golpe de Estado e se apossou do cargo, sob o compromisso de fazer um governo provisório e promulgar uma nova Constituição – democrática e inclusiva. Não fez nem uma coisa, nem outra.

Além do autoritarismo, o gaúcho Vargas também penalizava os paulistas de maneira especial, pois era contrário à chamada “política café com leite” (alternância do poder presidencial entre mineiros e paulistas). A insatisfação paulista foi aumentando, com a realização de protestos e passeatas cada vez maiores. Até que, em uma delas, no dia 23 de maio, quatro estudantes foram mortos pelas forças de repressão de Vargas: Mário Martins, Euclides Miragaia, Dráuzio de Souza e Antônio Camargo. As iniciais de seus nomes (MMDC) viraram símbolo da insatisfação, até que, em 9 de Julho, os paulistas colocaram as mangas de fora e puseram as mãos em armas. Apesar do potencial paulista, a revolta acabou sufocada pelo poderio militar e também pelo recuo de outros estados que haviam se comprometido a entrar na luta.

Os conflitos duraram três meses. Em 2 de outubro, Vargas derrotou as tropas paulistas e tomou o controle do governo do Estado, mas a derrota nas armas acabou se tornando uma vitória, pois o objetivo do levante acabou sendo alcançado. Pressionado, Vargas convocou uma eleição Constituinte, realizada em 3 de maio de 1933. Os eleitos elaboraram uma nova Carta Magna, promulgada em 16 de julho de 1934.

E SANTOS?

A cidade de Santos foi estratégica, por conta do porto e também pelo nível de adesão ao movimento. As guarnições dos Tiros de Guerra 11 e 598 foram as primeiras a aderir à revolta.

Estima-se que cerca de 3 mil santistas foram para as frentes de batalha, nas divisas de São Paulo com o Rio de Janeiro e Minas Gerais. Destes, 41 morreram em combate.

A Marinha estabeleceu um bloqueio naval no Porto de Santos, para evitar o abastecimento do esforço de guerra paulista.

CAPACETES DE AÇO

Para financiar o esforço de guerra, foram realizadas campanhas de arrecadação, como a Capacetes de Aço, que, em uma semana, conseguiu a doação de vinte contos de réis (em valores atualizados, cerca de R$ 500 mil).

Outra campanha foi a “Ouro para o Bem de São Paulo”, que arrecadava o metal precioso para custear a compra de material bélico, roupas, alimentos e remédios. Diversos esportistas da cidade de Santos doaram suas medalhas para a causa. Entre eles, toda a equipe de remo do Internacional, que aceitou com que se doasse todo o acervo conquistado pelo clube.

Liderados pela Associação Comercial de Santos, os comerciantes pagaram os salários dos empregados que fossem para os campos de batalha.

Para lembrar o esforço dos paulistas em 1932, foi inaugurado em 26 de janeiro de 1956 o Mausoléu “Filhos de Bandeirantes”, na Praça José Bonifácio, no Centro de Santos.

Mas outra homenagem havia sido entregue antes, quando a eclosão do conflito completou quatro anos: a Fonte 9 de Julho, na Praça das Bandeiras, onde estão as estátuas angelicais.