Política

Temperatura política começa a subir a partir de abril

27/12/2025 Marco Santana
Divulgação/TRE

2026 será um ano de alta temperatura política, por conta das eleições em outubro, mas o cenário já começa a entrar em ebulição a partir de abril, quando várias definições acontecem. Os cientistas políticos Fernando Chagas e Rafael Moreira ajudam a entender o que está em jogo e o que pode acontecer.

O que esperar do cenário político brasileiro nos primeiros quatro meses de 2026, tendo em a eleição em outubro?
Fernando Chagas- Serão decisivos para a oposição decidir o candidato da direita a Presidência da República entre os governadores Tarcísio de Freitas, Romeu Zema, Ratinho Júnior ou Jorginho Mello ou ainda o senador Flávio Bolsonaro. O escolhido terá a tarefa de enfrentar o presidente Lula no segundo turno da eleição, numa disputa bastante acirrada, dada a polarização estabelecida atualmente dos defensores da democracia contra os promotores do autoritarismo.
Rafael Moreira- Os primeiros quatro meses são de definição dentro dos partidos para ver quem vai se colocar de fato como candidato ou quem se colocava mais como balão de ensaio. E isso depende muito a conjuntura econômica, indicadores como desemprego, inflação, grau de formalidade. Isso tudo se reflete diretamente no índice de popularidade do Lula e isso também influencia na definição de quem vai ser candidato ou não.

Por que abril é um mês tão importante?
Chagas- Os candidatos já terão definido seus partidos e começará a discussão entre as siglas partidárias em todos os Estados, a fim de decidir as alianças políticas, de acordo com a conveniência de cada um e seus cálculos eleitorais.
Moreira- É quando o cenário começa a ficar mais claro. A legislação coloca que seis meses antes da eleição, é preciso se desincompatibilizar seu cargo. Também a janela partidária, período em que deputados federais e estaduais podem fazer a sua migração partidária sem qualquer punição. O cenário começa a ficar mais claro também para a gente definir quais são aqueles potenciais puxadores de voto.

Quais as pautas que vão dominar o debate eleitoral?
Chagas- Certamente, segurança pública, tendo em vista o clima de temor da população com a sensação de crescimento do crime organizado nos centros urbanos, e a economia em geral, principalmente o crescimento do País, o emprego, o aumento da renda do trabalhador e a produtividade industrial. Também não deverão ficar ausente a melhoria no atendimento da saúde pública, a qualidade do ensino público, outra reforma da Previdência Social e a importância dos programas sociais na vida das classes de mais baixa renda. Sem esquecer, obviamente, o eterno debate sobre o déficit fiscal, ou seja, como atender às necessidades de grande parte da população brasileira sem gastar demais, já que os recursos orçamentários são escassos e as despesas de custeio são imensamente.
Moreira- Teremos duas pautas centrais, a economia e a segurança pública, não necessariamente nessa ordem. Historicamente, algumas pautas têm muito pouca relevância para o eleitorado na hora de definir o seu voto, por exemplo, política externa. A economia, muito mais por parte do governo do que pela oposição, ele vai querer mostrar que os indicadores econômicos têm melhorado nos últimos quatro anos: inflação, desemprego, aumento do poder de compra, e tentar linkar isso com medidas como seus programas sociais, o Pé de Meia, a revisão da tabela de imposto de renda. Já a oposição vai querer bater muito mais na questão da segurança pública, falando sobre feminicídios, homicídios e roubo de celular.

Estamos testemunhando uma briga, entre os governos federal e estadual, pela “paternidade” de obras e realizações. Isso faz sentido para o eleitor? Vai colar?
Chagas- Essa discussão está bem acentuada porque vários governadores de oposição ao Governo federal são declaramente pré-candidatos a Presidência da República, precisando demonstrar que são grandes realizadores de obras públicas em seus Estados, e que poderiam ser melhores do que a atual Administração Federal. De qualquer maneira, a população não quer saber do “pai da criança”, as pessoas desejam as obras prontas e os serviços públicos funcionando com eficiência. Como diz o ditado chinês: não importa a cor do gato, é importante que ele pegue o rato.
Moreira– Essa disputa sempre aconteceu no Brasil e vai continuar acontecendo. Ela acontece porque parte considerável do eleitorado brasileiro que não conhece as competências de cada uma das esferas de poder. Não sabe o que cabe a um governo municipal, o que cabe a um governo estadual e o que cabe a um governo federal. A obra do túnel Santos-Guarujá é um bom exemplo dessa disputa de narrativas.