
Os trilhos do subsolo deixam de ser apenas passagem para se tornarem cenário em ‘Cidade Subterrânea’, doc-reality licenciado pela Endemol Shine Brasil em parceria com o Metrô de São Paulo, com direção do jornalista Eduardo Rajabally. A produção mergulha no ecossistema das linhas metroviárias da capital para revelar que, por trás do fluxo diário de milhões de passageiros, existe uma engrenagem complexa e ininterrupta.
Exibida semanalmente no Fantástico, no GNT, e com episódios completos disponíveis no Globoplay, a série apresenta histórias surpreendentes de quem atravessa as catracas todos os dias. São personagens anônimos que, juntos, compõem o retrato de uma cidade que pulsa 24 horas por dia.
Rajabally assina a linguagem e a estrutura narrativa da série. “É o tipo de produção que só acontece com o metrô abrindo as portas”, afirma. O conceito, segundo ele, era claro desde o início: traduzir em imagem a complexidade de um sistema que transporta cerca de 3,5 milhões de pessoas diariamente. “É uma megaoperação”.
A série revela o lado invisível das estações ao acompanhar de perto o ritmo das equipes que mantêm o sistema em funcionamento. Com acesso inédito a áreas restritas — como o Centro de Controle de Operações e a Sala de Inteligência e Segurança —, o público acompanha ocorrências reais, do atendimento a emergências médicas ao combate a furtos, comércio irregular e casos de assédio. Imagens de câmeras de vigilância e registros corporais dos agentes intensificam a sensação de imersão.
Cidade sob a cidade
Ao se deparar com os bastidores do sistema, o diretor destaca o impacto da escala. “O metrô é realmente uma cidade subterrânea, um mundo que se espalha sob São Paulo”. A própria natureza difusa desse espaço exigiu planejamento rigoroso: definir onde filmar, em quais horários e em que estações.
Alguns pontos se mostraram mais intensos, como a estação Sé ou áreas próximas a estádios em dias de jogo. “Há lugares onde algo acontece todos os dias. Outros dependem de eventos específicos”. Ainda assim, o imprevisível se torna regra. “Muitas vezes, era estar no lugar certo, na hora certa”.
Inesperado do cotidiano
Ao longo dos dez episódios, a variedade de situações surpreende até usuários habituais. Emergências médicas, investigações, furtos, conflitos entre torcidas e até operações antibomba atravessam a narrativa.
Entre as descobertas mais marcantes, Rajabally destaca a atuação de agentes à paisana. “Eu não fazia ideia desse trabalho. É impressionante”. Para registrar essas ações, a equipe utilizou câmeras e microfones ocultos, revelando uma dimensão pouco conhecida da segurança no sistema.
Trabalho na madrugada
Se durante o dia o metrô é sinônimo de fluxo, à noite ele revela outra camada de intensidade. “Há cerca de quatro horas para realizar toda a manutenção”, explica o diretor.
Nesse intervalo, acontecem operações de alta complexidade, como a substituição de trilhos. “Eles identificam microfissuras e trocam estruturas inteiras em poucas horas. É metal fundido a dois mil graus e, pouco depois, o trem já está passando novamente”. Um trabalho invisível que sustenta a precisão do sistema ao amanhecer.
Narrativa em camadas
A construção dos episódios exigiu soluções narrativas específicas. Muitas histórias começam a partir de imagens captadas por câmeras de segurança ou pelos próprios agentes. “A equipe nem sempre chega no início da ocorrência, então a narrativa é montada a partir de múltiplas fontes”, explica.
Além das ocorrências, a série abre espaço para personagens que oferecem outras formas de olhar o metrô — artistas, trabalhadores e passageiros que transformam o cotidiano em experiência sensível.
Olhar transformado
Depois da experiência, a relação do diretor com o metrô mudou. “Uso há mais de 30 anos, mas descobri coisas que nunca imaginei”. A sensação, segundo ele, é de estranhamento diante do familiar.
É justamente essa a aposta de ‘Cidade Subterrânea’: provocar no público a percepção de que, mesmo nos espaços mais cotidianos, ainda há muito a ser descoberto. “Quem acha que conhece vai perceber que não conhece tanto assim. Há muitos segredos ali”.


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