Significados do Judaísmo

Shadchan – A casamenteira Voltou à Moda

10/03/2026 Mendy Tal
Shadchan – A casamenteira Voltou à Moda | Jornal da Orla

É oficial! – O casamenteiro judeu está de volta à moda! Algumas pessoas podem não saber o que é um casamenteiro, o shadchan, apesar de que o casamenteiro judeu é tão sinônimo da vida judaica. No entanto milhares de judeus nunca ouviram falar de um shadchan. A ideia aqui é apresentar novamente a rica história do shadchan e explicar como ele caiu em desuso e agora está de volta, com toda a força, às nossas vidas.

O casamento arranjado faz parte da vida judaica desde o Livro do Gênesis. O processo tradicional de um shadchan é encontrar um parceiro — shidduchim em hebraico — e foi apresentado ao mundo em geral pelo sucesso do musical Um Violinista no Telhado, e, mais recentemente, também ganhou destaque na série de TV israelense Shtisel e na série Jewish Matchmaking da Netflix.

Um shadchan pode ser tanto homem quanto mulher, embora encontremos majoritariamente uma casamenteira.

O judaísmo considera o casamento a base da convivência humana e o alicerce da comunidade. Como meio para o cumprimento do mandamento bíblico de p’ru u’rvu, “sede fecundos e multiplicai-vos”, o casamento judaico é também a base da sobrevivência do povo.

Nos tempos bíblicos, os casamentos eram comumente arranjados e negociados pelas famílias do futuro casal. O primeiro exemplo de casamento arranjado pode ser considerado o dos dois primeiros seres humanos na Terra — quando Deus criou Eva para que Adão não ficasse sozinho.

Outro exemplo bíblico proeminente pode ser encontrado em Gênesis 24, quando um Abraão já idoso instrui seu servo Eliézer a encontrar uma esposa para seu filho, Isaque. Abraão envia Eliézer para encontrar uma mulher de seu próprio povo. Eliézer pede a Deus um sinal quando encontrar a mulher certa. Por uma feliz coincidência, quase imediatamente ele encontra Rebeca em um poço e ela concorda prontamente em se casar com Isaque, mesmo sem nunca o ter visto. Após negociar com a família de Rebeca, ela retorna com Eliézer para se casar com Isaque.

Se analisarmos a trajetória do shadchan desde os primórdios, veremos uma evolução nas necessidades do processo de casamento entre pessoas do judaísmo. Nos primórdios, o shadchan era essencial para manter vivas as comunidades fragmentadas e isoladas durante o período de perseguição e pogroms na Idade Média. Os shadchans arriscavam suas vidas percorrendo estradas perigosas para alcançar comunidades remotas e manter o tecido social unido. “Deus une duas pessoas, mesmo que tenha que trazê-las de um extremo ao outro do mundo” diziam os estudiosos talmúdicos. Na época dos shtetls, o shadchan se torna para sempre uma figura marcante em nossa memória, um membro influente da comunidade que conhecia todos e todos os seus hábitos.

O casamenteiro mantinha as famílias vigilantes e receosas em relação a casamentos mistos e ilegitimidade. Ele sabia que os melhores casamentos eram baseados em qualidades acadêmicas, formação e linhagem familiar. Paradoxalmente, a ideia de que o casal nunca se encontrasse antes da cerimônia de casamento (chupá) resultava nos casamentos mais sólidos e confiáveis, onde o amor era aprendido, crescia ao longo dos anos e as famílias se enraizavam no fato de que as comunidades eram unidas por valores compartilhados.

Uma prática comum era unir um jovem e promissor estudioso da Torá a uma jovem rica. Isso garantia que o estudo da Torá e os estudiosos tivessem financiamento adequado.

Documentos jurídicos judaicos da Idade Média revelam que, embora o uso de um casamenteiro fosse comum nas comunidades alemãs e francesas, essa função era praticamente inexistente entre os judeus sefarditas.

Devemos notar, porém, uma casamenteira não pode determinar se haverá química entre duas pessoas. Seu trabalho não é tentar unir almas gêmeas, mas sim pessoas com valores semelhantes. Um gosto musical parecido ou um interesse em comum por cultura podem não fazer um relacionamento durar a vida toda; atitudes em comum em relação à família, ao casamento, a Deus e à vida, sim.

Os casamenteiros desempenharam um papel fundamental nos relacionamentos judaicos e hoje estão de volta à moda, mas com um novo disfarce: os encontros online! O shadchan costumava ser o membro mais visível da comunidade, ocupado no shtetl coletando informações e usando-as imediatamente para unir pessoas. Hoje, os computadores são seu maior recurso, e o shadchan trabalha arduamente para analisar perfis nos serviços de namoro e apresentá-los aos membros que aguardam encontrar seu beshert (parceiro ideal).