Metrópole

Santos sem carro

07/07/2026 Paulo Medeiros
Divulgação

Recentemente decidimos ficar sem carro, após quase uma vida inteira em que éramos cabeça, tronco e rodas. Já estava no planejamento estratégico do envelhecimento: morando perto da praia, em um bairro que tem tudo à mão, sem pagar a condução Intermunicipal e aguardando a gratuidade em Santos (ô, Sr. Prefeito, lembra da turma de 60 a 64 anos!), achamos que este era um bom momento para dar esse passo.

Tarifa zero sou contra, acho que devemos sempre cobrar algo, ainda que mínimo 1,00 ou 2,00, como no Bom Prato por exemplo. Penso que a gratuidade para todos agregaria um volume de usuários que normalmente iriam a pé que só prejudicaria a qualidade daqueles que realmente precisam do transporte, obviamente sem prejuízo das gratuidades para idosos, estudantes e talvez até ampliar para desempregados etc.

Andando de ônibus fora do horário de pico, a primeira coisa que me chamou a atenção foram elas: as mulheres. Tirando os idosos, como eu, e os jovens estudantes, praticamente só há mulheres nos ônibus. Guerreiras para quem não existe tempo ruim.

No horário de pico, já estão lá os trabalhadores, indo ou voltando da lida diária, buscando o sustento da família. Homens adultos, fora desse horário, são raros. Devem estar nas bicicletas, elétricas ou não, nos carros ou simplesmente andando a pé.

Outra coisa marcante são os celulares. “Todos similares / Carregam nas mãos seus celulares / Rostos singulares / Se tornam vulgares em meio à multidão”, dizia Nando Reis em uma canção. Eles me lembram os judeus em seu “shuckling”, balançando-se enquanto rezam ou estudam a Torah. Ou seria apenas o ritmo da música nos fones de ouvido? Tenho dito: antes víamos programas de duas horas na TV, intercalados por comerciais de 15 ou 30 segundos. Hoje passamos o dia vendo vídeos de 15 ou 30 segundos, intercalados por algum filme de duas horas no streaming.

Muitos me dizem: “Compre uma bicicleta!”. Confesso, porém, que tenho certo receio. Outro dia precisei levar a bicicleta da minha filha e fui pela ciclovia do Canal 1. Sou alto e, em alguns momentos, com outra bicicleta vindo no sentido contrário e aquelas árvores mal podadas, pensei que iria acabar conversando com os peixinhos do canal.

Minha filha, usuária frequente das ciclovias, fala sempre do risco representado por essas verdadeiras motocicletas disfarçadas de bicicletas, com pneus largos, andando em alta velocidade e ultrapassando perigosamente nas ciclovias. Tenho medo, mas Santos convida a pedalar, tudo perto e sem ladeiras.

Também sempre gostei de caminhar; cheguei até a correr. Mas, devido a problemas de coluna, troquei a corrida pela natação. Nas minhas caminhadas, nada de fone de ouvido. Gosto dos meus pensamentos, dos meus devaneios, as vezes eles são meio megalomaníacos, mas inofensivos, no máximo viram um texto a compartilhar.