Cena

Saída de Bonner do ‘Jornal Nacional’ representa uma mudança de modelo

03/09/2025 Gustavo Klein
Divulgação

No Brasil, poucas vozes se confundem tanto com a própria ideia de telejornal quanto a de William Bonner. Em novembro de 2025, ele se despede do Jornal Nacional depois de quase trinta anos no comando. O gesto tem peso histórico: encerra-se um ciclo em que um apresentador não apenas anunciou as notícias, mas também moldou o modo como o país as ouviu.

Bonner começou discreto, como redator e locutor da Rádio USP. Passou pela Band São Paulo, onde apresentou telejornais locais, até ser contratado pela Globo em 1986. Na emissora, galgou cada degrau: SPTV, Fantástico, Jornal da Globo, Jornal Hoje. Em 1996, assumiu a bancada do JN e, três anos depois, virou editor-chefe. Ali, se firmou como o rosto da principal vitrine jornalística do país.

Sua marca foi a ruptura com o modelo Cid Moreira. Se antes o apresentador era quase uma entidade distante, Bonner trouxe proximidade. A cadência mais clara, o tom didático e a construção de empatia mudaram a forma de assistir às notícias. O Jornal Nacional deixou de ser uma missa solene e passou a soar como uma conversa séria entre repórter e público. Essa mudança influenciou toda uma geração de jornalistas e consolidou um estilo que segue sendo imitado.

O sucessor será César Tralli, que nos últimos anos apresentou o Jornal Hoje e ganhou experiência cobrindo o JN em ocasiões eventuais. Sua escolha não é acidental: Tralli já mostrou um estilo próprio, mais leve e direto, sem se afastar do rigor. O desafio é óbvio — entrar no lugar de Bonner sem virar sua sombra. Mas o fato de trazer uma nova energia pode ser justamente o que mantém o telejornal vivo.

Bonner, por sua vez, migra para o Globo Repórter, dividindo bancada com Sandra Annenberg. É a realização de um desejo antigo: trocar a rotina pesada do noticiário diário pelo mergulho narrativo do jornalismo documental. Um deslocamento que dá a medida do momento: não se trata de uma despedida, mas de uma transição calculada.

A saída de Bonner simboliza a passagem de um modelo para outro. Do telejornal imponente, que falava de cima, para uma televisão que busca contato direto com o público. A partir de 2026, Tralli terá a chance de construir seu próprio legado. Mas é inevitável: no imaginário cultural brasileiro, a era Bonner já está gravada como um capítulo definitivo.