
Como explicar o Café Teatro Rolidei para quem nunca subiu os três lances de escada do Teatro Municipal Braz Cubas? Renato Di Renzo, idealizador do espaço, não hesita: ali não era um café comum — e muito menos um teatro convencional. “As pessoas imaginavam um teatrinho com um cafezinho no canto. Mas a verdade é que a gente queria um espaço aconchegante, onde as pessoas pudessem entrar e se espalhar”, resume. Para celebrar mais de duas décadas dessa história, será lançado gratuitamente no dia 3 de dezembro, às 19 horas, no próprio teatro, o livro “Rolidei: Histórias e Boatos que Vivi Por Lá”.
Com 160 páginas coloridas, diagramação de André Ghaoui e textos de Renato, Ghaoui e do jornalista André Azenha, a obra combina relatos, fotografias e reflexões em uma narrativa afetiva e documental sobre o impacto do Rolidei na cultura e na saúde mental de Santos. Para Renato, trata-se de um gesto de resistência. “Santos, muitas vezes, esquece de registrar sua história. Este livro é um registro de quem construiu e viveu a cultura da cidade”. A publicação foi viabilizada por fomento da Prefeitura de Santos.
O jornalista André Azenha, co-autor do livro, garante que frequentar o Rolidei marcou sua vida e a relação com sua esposa. “Ao escrever sobre ele, revivi memórias e histórias. Entrevistas longas com o núcleo da TAMTAM e um formulário reuniram relatos, fotos e afetos de muitas pessoas. A escrita virou uma viagem no tempo, revelando a importância do espaço para Santos nos anos 1990 e 2000. Optamos por uma crônica, com emoção, textura e a vida pulsando além de uma biografia tradicional. O processo uniu vozes e reforçou sentidos que ainda permanecem”.
Início
O Rolidei surgiu há 22 anos, durante a montagem de Red Mary Blues. O espetáculo pedia atmosfera de bar, boate ou café — e a solução foi reinventar uma sala esquecida do Municipal. A ocupação virou ponto de encontro instantâneo. “Logo se tornou um lugar muito agradável, onde as pessoas eram bem recebidas e curtiam drinks com nomes engraçados, ligados à vida teatral”, lembra Renato. “Era um espaço onde você podia circular, conversar com o corpo inteiro”.
Mais que uma casa cultural, o espaço funcionava como refúgio emocional. “Chamo o Rolidei de um espaço de saúde mental. Aqui a sua higiene mental estava exposta, trabalhada”, afirma. “Você está cuidando da subjetividade tomando um café, um drink. É muito forte”. A adesão foi imediata. “A escadaria ficava lotada, do térreo ao terceiro andar. Era a urgência das pessoas estarem aqui, de acontecerem”.
O acontecimento
O que diferenciava o Rolidei de qualquer casa cultural ou balada santista? Renato gosta da ironia. “Primeiro, que era um susto. Quem vinha para a balada não encontrava uma balada”. Em vez de pista, o visitante dava de cara com um grande cenário, araras de figurinos e um ambiente pronto para o jogo teatral. “As pessoas se vestiam, assumiam personagens e começavam a contracenar. Às vezes chegavam como plateia e viravam atores”, recorda.
Havia temas semanais, dramaturgias criadas para cada noite, novelas teatrais. “No lugar de só suar e pular, você construía coisas. Participava”. O cardápio também surpreendia: arroz, feijão com ovo, linguiça frita, macarrão — tudo caseiro. E o célebre drink no abacaxi com 12 canudos, símbolo de celebração coletiva.
Histórias se multiplicavam simultaneamente: conversas na varanda, performances improvisadas no balcão, encontros inesperados no banheiro — famoso pelas conversas intermináveis. “Isso é vida. Isso é história”.
O livro nasce da urgência de guardar o que o Rolidei representou. “A gente escreve muito pouco sobre as nossas histórias. Precisamos registrar”, diz Renato.
O entorno do teatro também mudou com a presença do espaço. “Quando construímos, há mais de 20 anos, aqui era tudo escuro. Hoje há bares, cafés, vida”.
A pesquisa envolveu cadernos antigos, arquivos fotográficos e contatos espalhados — nem todos encontrados. “Por isso a gente diz que este livro é o vermelho — ainda virão o amarelo, o verde, o azul”.
Histórias marcantes
Renato recorda encontros com críticos, atores, autores, estreias. “Lucinha Lins dizia: ‘quando eu for pra Santos, quero dar entrevista no Café Teatro Rolidei’”.
Uma das lembranças mais fortes veio de Matheus Sinibaldi, primeiro diretor do Teatro Municipal de São José do Rio Preto. Ao observar a noite, chamou Renato e afirmou: ‘Você tem o maior teatro aberto e espontâneo que eu já vi no mundo’. “As pessoas se transformavam em atores. Não era fantasia: era personagem”, diz Renato.
Arte e cuidado em cena são referências de inclusão
Referência em inclusão e saúde mental, o Rolidei nasce da convergência entre arte, cuidado e convivência. Desde os tempos de atuação em hospital psiquiátrico, o grupo já estimulava práticas artísticas como disparadoras de subjetividades. “A gente trabalha a arte não como atividade, mas como o artístico das pessoas, na dimensão estética que se deseja”, explica Renato. Essa vocação atravessa o Rolidei e dialoga com o Projeto TAMTAM, também idealizado por Renato. “Era sempre sobre conviver com os outros. A marca da inclusão vem junto”.
A psicóloga, coreógrafa e hoje vereadora Cláudia Alonso reforça essa perspectiva. “Voluntário não é quem faz de qualquer jeito, com pena. Aqui tudo sempre foi feito com cuidado, detalhe, brilho”.
Construção coletiva
Ao revisitar as histórias para o livro, muitos se emocionaram. “Acho que o livro vai servir como um objeto de potencializar vidas”, diz Renato.
Cláudia recorda o início do espaço, no fim da gestão David Capistrano Filho, quando o secretário Marco Antônio Rodrigues propôs reunir ali egressos do Anchieta e jovens vulneráveis. O começo foi precário — e revolucionário. “O Rolidei foi construído com restos de caixas de feira, madeira, objetos das nossas casas. Era suor, corpo e alma”.
Renato é direto ao falar o que fazia do Rolidei um espaço tão acolhedor. “A primeira palavra é humanismo. Nunca fomos de mentira. Aqui ninguém faz assepsia de pessoas”.
O impacto se espalhou pelo teatro inteiro. “Do secretário ao porteiro, todos passaram a se envolver com inclusão”, lembra Cláudia.
O Rolidei também enfrentou ataques: ameaças, porta arrombada, equipamentos roubados, sabotagem do elevador para impedir o acesso de pessoas com deficiência. “Trabalhar com pessoas vulneráveis não é oportunismo. Se você não for oportunista, acham que você não é normal”, diz Cláudia.
Entre tantos episódios, desde pedidos de casamento no palco a bebês trazidos com “tampãozinho no ouvido”, Renato destaca histórias que revelam o caráter terapêutico do espaço.
O espaço também se tornou guardião de memórias. “As pessoas foram trazendo coisas das suas casas”, conta Renato. Malas, vestidos antigos, louças, livros e coleções passaram a compor o cenário porque famílias sentiam que ali seus afetos seriam preservados. “Diziam: ‘Aqui é o único lugar que vai continuar cuidando da minha mãe’”.
Celebração
Em 2024, o projeto recebeu verba parlamentar de quatro vereadores para ações em 2025. Parte do recurso viabilizou o livro que será lançado gratuitamente, no Teatro Municipal Braz Cubas. A noite terá coquetel, apresentação do Balaio Brasil e visita ao espaço. “É olhar para trás e ver tudo o que fizemos, quem caminhou com a gente, quem virou essencial”, diz Renato. “E provocar novas pessoas a inventarem novas constelações”.


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