
Eu era menina e ainda lembro o espanto ao assistir com meu pai A Volta ao Mundo em 80 Dias, aquela versão dos anos 50, em que o nobre inglês Phileas Fogg (David Niven) aposta 20.000 libras com seus colegas do Clube Reformatório de Londres de que consegue dar a volta no planeta em exatamente 80 dias. Ao lado do parceiro Passepartout (Mario Moreno, Cantinflas) vai seguindo em um balão. Fiquei encantada ao perceber o tamanho do mundo e como aquele veículo movido a fogo conseguia chegar a tantos continentes.
Décadas depois, lá estava eu na Capadócia, na Turquia, dentro de um balão. A decisão não foi nada fácil. Medrosa por natureza, sempre fugi das alturas: montanha russa, roda-gigante e por aí vai. Avião só mesmo porque a vontade de viajar é maior do que o medo.
Inicialmente eu resolvi que não iria, para que sofrer e passar por toda tensão? Algumas pessoas contaram as dificuldades para entrar e sair da cesta do balão e logo pensei que a desculpa era ótima para meus joelhos fragilizados. Meus filhos e minhas netas não me deram alternativa: “Não existe a possibilidade de não ir, quando terá outra oportunidade?”.
Com tanto incentivo, acertei a viagem para o dia seguinte, mas fui pesquisar o funcionamento do inimigo. Um balão se move através do princípio da flutuabilidade, onde o ar quente dentro de seu envelope (a parte de tecido) torna-se menos denso que o ar frio ao redor, criando uma força ascendente que o faz subir. O piloto usa um queimador de propano para aquecer o ar, controlando a altitude. Para descer, ele reduz o ar quente, tornando o balão mais pesado e escolhe um lugar seguro e aberto.
Parece tão simples, mas quando você se vê diante daquele enorme balão sendo inflado e a chama, o medo volta. Na véspera nem dormi direito. Às 3h30 já estava pronta para esperar a van da agência que passaria às 4 horas da manhã.
Logo, lá estavam eu e a minha insegurança no local da partida. Cada balão leva cerca de 16 pessoas, divididas nas cestas. Minha primeira surpresa foi subir e entrar na cesta, foi tranquilo, ainda bem que a flexibilidade de anos de yoga e musculação dos últimos tempos ajudaram.
Lá dentro a espera é temperada pelas explicações, como as orientações nos voos. Pior foi o teste para a descida: todos têm que se sentar no chão e segurar em duas alças. Sentar tudo bem, mas para me levantar precisei de ajuda.
Quando o balão colorido começou a subir lentamente, numa sintonia perfeita com os outros, passou todo o medo. Eu estava ali olhando uma paisagem belíssima e o nascer do sol, e nem mesmo as falas do piloto com a base, relatando as correntes de ar, incomodaram. Chegamos a 800 metros de altitude (podem chegar até 1500, conforme o vento).
O cenário por todos os lados era mágico, parecia cena de filme. Formações rochosas bem diferentes, vales profundos, cânions e cavernas esculpidas pela erosão. As cores do céu ao amanhecer completavam com perfeição.
Acho que poucas vezes na vida eu me senti tão tranquila, sem pensar em nada, integrada àquela paisagem de sonho, a natureza se revelando única a cada movimento do balão. Em cerca de 45 minutos meu olhar foi privilegiado. O tempo passou e eu nem percebi, agradeci emocionada por viver aquela experiência e por ter vencido mais um desafio do meu envelhecer.
A descida também foi suave, embora tenha pedido apoio de novo para conseguir me levantar. Sair da cesta foi tranquilo, mas não para todos. Do lado de fora, nos esperava a mesa com taças de espumante para brindar o voo. A equipe responsável por tantos detalhes que envolvem a segurança recebeu a caixinha merecida e aplausos. Para eles, a experiência se repete a cada dia, quando os ventos permitem. Para nós participantes, quem sabe? Todos recebemos um diploma para recordar o passeio. Nem precisava, são momentos inesquecíveis como esse que fazem a vida valer a pena.



Uma experiência é tanto Esse passeio é mágico !!!!!!