
Já fui um torcedor exagerado, nos tempos de infância e adolescência. Adulto, nunca coloquei o futebol acima de família e trabalho. Jamais me passou pela cabeça trocar o leite de filho por um ingresso de futebol ou uma viagem para torcer por meu time.
O fanatismo futebolístico já fez muitas vítimas, inocentes ou não, assim como qualquer tipo de radicalismo político ou ideológico. Por conta disso, também nunca fui adepto da ideia da Seleção Brasileira ser a “Pátria de Chuteiras”. Para mim, isso é uma perigosa alienação dos problemas do cotidiano. É como o Carnaval: uma distração temporária da realidade.
Mas reconheço que duas Copas do Mundo foram marcantes em minha vida: a Copa de 1966 foi responsável pelo diagnóstico de uma bronquite emocional, quando eu tinha 6 anos; enquanto a de 1970, com aquele time maravilhoso, em que quase todos os jogadores estavam em posições trocadas e o preparo físico foi determinante para que a técnica fosse sublimada nos pés daqueles verdadeiros e inesquecíveis artistas da bola.
A de 1974 foi decepcionante, pela falta de Pelé e por escolhas de jogadores que pareciam mais preocupados com suas transferências para o exterior. Ser “campeão moral” em 1978 não significou muita coisa, pela forma como aquela Copa ocorreu.
A de 1982 me deixou revoltado, pois mostrou que qualidade técnica e uma miríade de craques têm sua importância, mas, sem empenho — a tal “raça” —, isso não é suficiente.
1986 e 1990 passaram em brancas nuvens, e aquela “safra” de futebolistas clássicos findou sua história sem conquistar nenhum título mundial de seleções.
O campeonato de 1994 deu um misto de raiva e desespero, com um time mal dirigido, que só conquistou o título graças a Taffarel, Bebeto e Romário, apesar do técnico, e graças à incompetência de Roberto Baggio na cobrança do pênalti decisivo. Saí de casa para não assistir a esse calvário. 1998 ainda carece de explicações.
O pentacampeonato de 2002 foi uma redenção, coroando uma geração vencedora, em que técnica se uniu à superação. Ronaldo Nazário que o diga!
As seguintes não são nem um pouco memoráveis, algumas menos, outras mais.
Não era nascido em 1950, mas estava bem vivo em 2014, quando, pela segunda vez, agora de forma vexatória, o Brasil permaneceu como a única das grandes seleções a nunca vencer um título “em casa”.
A partir de 2002, as participações brasileiras em Copas do Mundo foram melancólicas, apesar de alguns lampejos, e a seleção foi se distanciando do gosto dos torcedores, a ponto de muitos passarem a torcer por outras seleções. O futebol “de resultados” sem resultados ganhou espaço e a pátria descalçou as chuteiras, até porque, em alguns casos, o “salto alto” tomou seu lugar.
Que venham dias melhores, em que técnica e raça estejam presentes e bem alinhadas!


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