Metrópole

Para empresários, alta da Selic não impede oportunidades em imóveis

02/08/2025 Mariana Nerome
Fernando Yokota

Mesmo com a taxa básica de juros (Selic) em 15%, o setor da construção civil enxerga oportunidades de investimento. A avaliação foi feita pelo vice-presidente da Associação dos Empresários da Construção Civil da Baixada Santista (Assecob), Lucas Teixeira, durante o segundo encontro do BS Debate, evento promovido pelo Jornal da Orla e Record Litoral e Vale, em parceria com a Associação Comercial de Santos (ACS), sede do encontro.

Teixeira destacou que o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), utilizado para reajustar contratos de obras, está em 7% acumulado nos últimos 12 meses. “Esse índice reajusta as obras e, na verdade, você consegue aplicar na construção tendo o mesmo dinheiro e o comprador consegue apartamentos na planta pagando parcelas”, diz.

O painel reuniu nomes relevantes do setor imobiliário da região, como o CEO da Credlar Construtora, Sérgio Leal; a diretora-geral da Âncora Construtora, Ângela Creg; o coordenador institucional da Sobloco Construtora, Paulo Velzi; e o coordenador da Câmara Setorial de Construção Civil da ACS, José Ramón Crego. Eles debateram temas como urbanismo, crédito, financiamento, infraestrutura e desafios ambientais.
A conversa entre os empresários aconteceu em meio a dados preocupantes sobre o desempenho recente do setor na Baixada Santista: as vendas de imóveis caíram 34,93% e as locações recuaram 11,52% em junho, na comparação com maio, segundo pesquisa do Conselho Regional de Corretores de Imóveis de São Paulo (CRECI-SP).

Apesar da retração, Teixeira argumentou que o cenário pode ser vantajoso para investidores. “Quem está colocando no papel os custos de compra, está voltando ao mercado. Para quem é um investidor, é um momento interessante você entrar”, disse. Por outro lado, reconheceu que o ambiente atual é desafiador para quem busca moradia própria. “Num cenário de Selic de 15%, o financiamento de quem adquire imóvel para morar fica muito mais caro. Hoje, realmente, está complicado com essa taxa de juros”, admitiu.

ALTERNATIVA

Entre as alternativas para contornar os efeitos dos juros elevados, o CEO da Credlar, Sérgio Leal, apontou o programa federal Minha Casa, Minha Vida (MCMV). “Com o aumento da faixa para 500 mil reais, que é o MCMV, a classe média consegue superar o problema dos juros. Para apartamentos até 350 mil, que em Santos é ‘meio’ viável, a gente tem taxas até 8%. Aí, fica totalmente desproporcional ao mercado financeiro atual”, afirmou.

Leal destacou que a reformulação do programa conseguiu incluir uma faixa de renda que antes não encontrava opções viáveis de financiamento. “Essa nova faixa pegou a classe média no geral. Nós estamos falando não só de 500 mil (valor máximo do imóvel), mas para renda até 12 mil reais. Na região, o ticket de uma família de classe média está em torno disso”, acrescentou.

RESILIÊNCIA E LONGO PRAZO

A diretora-geral da Âncora Construtora, Ângela Creg, falou sobre a resiliência do setor diante das dificuldades impostas pelo cenário econômico. “O nosso ciclo de execução é enorme. São cinco anos desde a concepção do projeto, compra do terreno e toda aprovação da prefeitura”, explicou. “Durante esses cinco anos, a gente tem diversos reveses e constantemente um aumento dos insumos”, pontuou.

José Ramón Crego, da Câmara Setorial de Construção Civil da ACS, reforçou a importância de um olhar de longo prazo. “Tudo isso é momento econômico, a Selic está alta, mas temos que olhar para mais longe, a Selic já teve baixa e o nosso ciclo é longo. Eu não posso mexer nessa taxa, mas eu posso melhorar a qualificação do meu pessoal e desenvolver novas tecnologias para melhorar a eficiência da empresa”, argumentou.

O debate também abordou entraves ambientais e de infraestrutura urbana. Paulo Velzi, da Sobloco Construtora, alertou para as limitações impostas pelas regras de proteção ambiental, que impactam diretamente o crescimento ordenado das cidades. “A gente tem restrições ambientais rígidas. Há muitas áreas que, com maior estudo, poderiam ser ocupadas. Também há o problema das ocupações indevidas. O poder público tem feito sua parte, mas ainda há muito a fazer”, disse.