Cena

Orquestra Sinfônica mergulha em tragédia e transcendência

29/04/2026 Isabela Marangoni
ISABELA CARRARI/PMS

A Orquestra Sinfônica Municipal de Santos dá sequência à temporada 2026 com um programa de forte carga dramática e densidade emocional. No concerto desta quinta-feira (30), às 20h, no Teatro do Sesc Santos (Rua Conselheiro Ribas, 136, Aparecida), o público será conduzido por três obras que atravessam temas como morte, conflito e transformação: “A Tempestade”, de Piotr Ilyich Tchaikovsky, “Morte e Transfiguração”, de Richard Strauss, e “Funeral March”, de Henry Purcell, em versão recomposed assinada pelo maestro Luiz Gustavo Petri.

Os ingressos serão distribuídos gratuitamente no dia da apresentação, a partir das 18h, na bilheteria do Sesc, com limite de dois por pessoa.

A construção do programa segue um processo contínuo, que atravessa meses — ou até anos — de maturação. Ideias, temas e possibilidades vão sendo acumulados até se transformarem em concertos viáveis. “Trabalhamos sempre com várias opções. Ao longo do tempo, vamos discutindo conceitos e, no fim, organizamos tudo de acordo com orçamento, agenda e convidados. Aí escolhemos uma dessas propostas”.

O recorte escolhido reúne três peças distintas, mas unidas pela intensidade. “São obras muito densas, reflexões profundas sobre a morte e situações limite. Apesar disso, cada uma tem uma linguagem própria”, resume.

Tragédia e reinvenção
A abertura traz uma recriação a partir de Purcell. A peça nasceu de um projeto anterior inspirado no filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick. Diante da impossibilidade de executar a versão original com a formação disponível, Petri desenvolveu uma nova abordagem. “Não é uma transcrição. É uma recomposição pensada para orquestra, com outra atmosfera”, afirma. O resultado é uma obra contemporânea, baseada em um material do século XVII, marcada por peso dramático e intensidade sonora.

Na sequência, “A Tempestade” dialoga com o universo de William Shakespeare para construir uma narrativa musical sem palavras. O poema sinfônico alterna tensão e lirismo, evocando tanto o caos marítimo quanto impulsos afetivos. “Há momentos de grande turbulência, como se estivéssemos em alto-mar, e de repente tudo se aquieta para dar lugar a um tema romântico — mas sempre atravessado por uma sensação trágica”, descreve o regente.

Fim como transformação
Encerrando o programa, “Morte e Transfiguração” propõe uma travessia pela experiência da morte sob uma perspectiva artística. A obra acompanha os últimos instantes de um criador, entre conflito, memória e redenção. “É como se fosse um balanço de vida. Passa por tensão, desespero e, no final, chega a uma espécie de elevação”, diz Petri.

O maestro destaca ainda a precocidade de Strauss ao compor a peça, ainda jovem. “É impressionante a profundidade e a complexidade técnica que ele alcança”. Anos depois, já no fim da vida, o compositor retomaria esse mesmo tema em sua última obra — um gesto que, segundo relatos, ele próprio reconheceu como a confirmação de uma intuição artística da juventude.

Xadrez sinfônico
A escolha do repertório também envolve decisões práticas. “Existe um ‘xadrez’ na formação da orquestra, na necessidade de músicos extras, na logística. Mas também pesa o fato de que são obras inéditas para o grupo”, afirma o maestro. O desafio técnico é alto, mas o resultado, segundo ele, compensa: “É um repertório exigente, mas está muito bonito”.

Apesar do tom sombrio, a proposta não é de abatimento, e sim de transformação. “É um concerto que mexe profundamente com a alma, mas que termina com uma sensação de elevação”, diz.

Para o público, a experiência pode ser tanto sensorial quanto reflexiva. “Você pode simplesmente ouvir e se deixar levar pela música. Mas, se quiser ir além, há uma carga simbólica muito forte ali”, conclui. “A ideia é sair alimentado — com mais consciência e, de certa forma, mais força para seguir”.