Velho, eu?

O sentido da vida está fora de nós

16/11/2025 Ivani Cardoso
O sentido da vida está fora de nós | Jornal da Orla

“A alma humana pode suportar tudo, exceto a ausência de sentido”
Viktor Frankl, psiquiatra, neurologista, escritor e professor

Buscar o sentido da vida parece inatingível para muitos de nós, e mais ainda no envelhecer. Será mesmo tão difícil encontrar? Para falar sobre o tema, conversei com o professor paulistano, filósofo e jornalista Ariel Finguerman, que há 25 anos mora em Israel e é especialista na obra do psiquiatra e neurologista Viktor Frankl. A surpresa: essa resposta pode ser mais simples do que sempre acreditamos.

O médico, que morreu aos 92anos, lançou suas ideias sobre a logoterapia no início do século XX, foi vítima da perseguição nazista, ficou preso durante anos em campos de concentração, inclusive em Auschwitz, e conseguiu sobreviver aplicando os princípios de seus estudos e ajudando outros prisioneiros. Ele dedicou mais de 70 anos à teoria que busca encontrar o sentido da vida para fugir do vazio existencial, que pode gerar frustrações, depressão, doenças e dependências.

Ariel, que se define como conselheiro da logoterapia, estudou nos Institutos Viktor Frankl de Israel e do Canadá, e traz uma luz à pergunta que todos nos fazemos: afinal, qual é o sentido da vida? “Uma coisa é certa, o sentido da vida não deve ser egocêntrico, ele sempre está fora de nós. Felicidade e prazer não são motivos para a existência, eles são efeitos colaterais. Nós não vivenciamos o sentido na nossa solidão, o sentido de vida está em procurar outras pessoas, no trabalho, em um hobbie ou na atividade voluntária. Pode estar em uma visita a museus, em apreciar um bom espetáculo de música ou teatro.”

Em Israel, sua formação foi direcionada para o público mais velho e faz muitas palestras em organizações financiadas pelo governo de apoio à terceira idade e residenciais. “No Brasil ainda há preconceito com essa ideia, mas aqui em Israel, ao contrário, são lugares onde os mais velhos querem morar, com muitas atividades, cuidados e amigos.”

Quando fala da teoria de Frankl, ressalta que ele sempre foi generoso em compartilhar informações e incentivar seus discípulos a continuarem desenvolvendo sua obra, por não ser dono da verdade. “Eu costumo citar uma frase em que ele diz que a vida sempre oferece sentido, em qualquer momento e em qualquer idade, e vai até o último suspiro. Não existe a desculpa de que a vida parou de dar sentido no envelhecer.”

Outro ponto que ele reforça é que há desafios especiais nessa fase: “Se uma pessoa para, e acha que a vida está sem sentido, é simplesmente porque não está percebendo o que está em volta. Quem passou a vida toda colocando expectativas no sentido no trabalho, quando se aposenta tem que entender que a vida está oferecendo outros sentidos. Se atuou na área de tecnologia e perdeu o emprego com mais idade, tem que pensar na possibilidade de mudar de setor e fazer outra coisa, não ficar insistindo no que já passou.”

A solidão é outro grande desafio, completa: “Quando se avança muito na idade é normal perder amigos, familiares, sair menos de casa e ter dificuldade para fazer novas amizades. É necessário entender, ficar em paz consigo e ter coragem para buscar outras atividades, como sair para caminhar, por exemplo. O pior que alguém pode fazer, especialmente os idosos, é ficar o dia inteiro em frente à televisão. O sentido da vida está nas pessoas à nossa volta, no cuidado com um pet, sendo mentor de um jovem, há muitas oportunidades.”

Ariel lembra, ainda, que quando pediam a Frankl que provasse a existência do sentido na vida, ele respondia de modo prático: A única prova que eu posso dar é a seguinte: quando uma pessoa tem sentido na vida, isso faz muito bem para ela; quando perde, começa a adoecer e a passar mal.

Curso
Para quem quiser conhecer melhor a obra de Viktor Frankl, Ariel coordena o curso O homem e a busca de sentido: Um guia para entender Viktor Frankl, gravado e gravado e online (pode ser assistido durante um ano) da Associação Palas Athena, de São Paulo O curso é gravado com online e no final haverá um encontro presencial.

Depois da guerra, o médico e psicoterapeuta lecionou em Harvard e outras universidades ao redor do mundo. Foi considerado entre os 10 escritores mais influentes dos EUA pela Biblioteca do Congresso de Washington. Seu livro mais famoso é “Em Busca de Sentido”, publicado em 1946, um ano após sua soltura ao fim da Segunda Guerra.

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