Santos

“O povo de Santos é solidário e humano”, diz sem-teto

14/08/2021 Da Redação
“O povo de Santos é solidário e humano”, diz sem-teto | Jornal da Orla

“Eu me orgulho desse pessoal de Santos. Se falar que passei fome um dia, é mentira. Isso porque o povo daqui é solidário, humano”. Palavras de Devanil Benedito Ferreira, de 63 anos, um senhor que vive pelas ruas de Santos há sete anos.

Devanil representa uma pequena parcela da sociedade que é invisível para alguns, incomoda outros, mas que está aí, bem na nossa cara, e que é o retrato de um país que ainda não encontrou o caminho para curar as chagas da desigualdade.

Como o senhor Devanil Benedito Ferreira, existem outros 867 moradores em situação de rua cadastrados pela Prefeitura. Embora o município ofereça abrigos, com refeições, muitos deles preferem continuar nas ruas, por razões diversas –  alguns, por exemplo, não querem se separar de seu maior companheiro, o cão “vira-lata”, que jamais os abandona.

Pois é. Devanil não tem um vira-lata, mas possui muitos amigos sem teto como ele e um violão de estimação.

“Esse violão tem história. Eu achei ele no lixo, aqui em Santos. Outro dia estava com ele na praia e fomos ‘batizados’ pela onda do mar”, conta, gargalhando.

Devanil afirma que sempre trabalhou na área de construção civil – “eu fazia de tudo na construção. Construí muitas edículas e até prédios. Mas agora já não consigo mais”. Ele explica que o braço esquerdo, que quebrou ainda menino, perdeu força, o que o impossibilita de trabalhar como antes. Há três anos vem tentando, sem sucesso, conseguir uma aposentadoria.

Enquanto não consegue a tão sonhada aposentadoria, Devanil segue pelas ruas da cidade, vivendo da solidariedade dos santistas.

Família ficou no interior de SP

Devanil conta que foi casado por 33 anos, tem cinco filhos (quatro homens e uma mulher), todos morando em Bauru, interior de São Paulo. Mas não quer mais saber da família.

“As crianças, quando crescem, já não obedecem mais e até batem nos pais. Eu não aceito isso e nunca vou aceitar. Apesar de tudo, a gente tem caráter, tem dignidade”.

Apaixonado por música desde criança, Devanil diz que resolveu deixar a família porque apanhava dos filhos. “A gente não se dá, e para não estragar o próprio sangue, decidi ir embora”, conta.

E como é viver nas ruas?
“Eu louvo a Deus, glorifico a Deus. Jesus nasceu numa manjedoura. Ele era o dono do mundo e foi o homem mais humilde. Por isso, a cada dia que ele me dá, eu agradeço”.

Quando não chove, Devanil e alguns amigos fazem ponto atrás da Igreja do Embaré, onde ele toca o seu violão e recebe a solidariedade dos santistas.

O que gostaria de mudar no mundo?
“A ignorância, a falta de consideração de algumas pessoas.
“Não precisa ser dinheiro. Às vezes um bom dia, um abraço, e a gente vai ficar muito feliz”.

E quando chove?
“A gente faz como Elias, oramos para parar a chuva”, responde ele.

 Devanil garante, no entanto, que nem ele e nem seus amigos ficam na chuva.

“Deus sempre arruma um lugar pra gente não se molhar”.

À noite, nos últimos tempos, costuma reunir amigos sem teto, como ele, atrás da Igreja do Embaré para tocar seu violão e louvar a Deus.

“Eu fiz um hino para glorificar a Deus por tudo que ele faz por nós.”

Denavil revela que já tomou a primeira dose da vacina contra a Covid-19 (diz que vai tomar a segunda ainda este mês), e revela que não tem medo da doença.

“Nós não temos nada a perder. Cada dia que Deus dá pra gente é um presente. Tudo é benção de Deus”.

Em meio à pandemia e à crise social, Devanil segue a vida com seus amigos e seu inseparável violão.

Estabelecimento de vínculos

É extremamente difícil conseguir que uma pessoa deixe de viver pelas ruas pois os motivos que a levaram a esta situação são extremamente complexos. Trata-se de um público diverso, cada um com suas histórias, tristezas, fragilidades e problemas.

Censo realizado em 24 de outubro de 2019 indicou que havia 868 pessoas em situação de rua na cidade, das quais 761 nos logradouros públicos e 107 acolhidas em serviços de acolhimento municipais. Entre os motivos apontados por estas pessoas estão conflitos familiares (46,5%), desemprego (37,1%), uso abusivo de álcool e outras drogas (32,4%) e perda de moradia (14,1%).

A coordenadora do programa Novo Olhar, Juliana Laffront, explica que, quanto mais tempo uma pessoa fica em situação de rua, mais difícil é ela sair desta condição. “Estamos falando de um público extremamente heterogêneo, há muitos motivos que levam essas pessoas a viver em situação de rua. Cada motivo leva à recusa de um encaminhamento, tanto para um serviço de acolhimento institucional quanto o centro Pop, por exemplo.

Segundo ela, a principal estratégia dos profissionais da Secretaria de Desenvolvimento Social da Prefeitura é a construção de uma relação de confiança com estas pessoas. “Elas não conseguem deixar esta lógica de vivência na rua, em detrimento ao acesso de um serviço de acolhimento. É um trabalho gradativo. O objetivo das equipes é a construção de vínculos com estas pessoas e, com elas, encontrar a saída para esta situação de rua. Não apenas a questão pontual, o encaminhamento para um abrigo”, explica Juliana, que é mestre em Serviço Social e Políticas Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

“As equipes estão todos os dias da semana, realizando este trabalho de convencimento, de aproximação, para conhecer de fato as pessoas, para propor os encaminhamentos que são necessários para cada situação”, completa.