
Há uma espécie de personagem que a política produz com inquietante regularidade. Não nasce necessariamente da inteligência, da vocação pública ou da competência administrativa. Nasce, muitas vezes, do aplauso. E o aplauso, quando repetido em excesso, costuma funcionar como um espelho deformado: amplia o rosto e reduz a consciência.
São os deslumbrados pelo poder. Entram na vida pública como quem entra num salão de festas. Descobrem, encantados, que seu nome é pronunciado com respeito, que sua presença provoca sorrisos, que suas frases mais banais são recebidas como se fossem pensamentos profundos. Aos poucos, deixam de distinguir a realidade da encenação.
O ego, que em doses moderadas ajuda o homem a suportar suas limitações, transforma-se em egocentrismo. O cidadão desaparece; resta a personagem. Ela distribui abraços, coleciona selfies, beija crianças, afaga idosos, aperta mãos em feiras, igrejas e inaugurações. Sua agenda é uma procissão de afagos. Sua principal obra é a própria popularidade.
Há algo de teatral nessa figura. Não governa: representa o papel de governante. Não administra: interpreta a administração. Não resolve problemas: visita problemas. A diferença entre uma coisa e outra é imensa, mas nem sempre perceptível ao eleitor seduzido pelo espetáculo da simpatia.
A mediocridade, quando acompanhada de arrogância, costuma ser repelente. Mas quando vem embrulhada em cordialidade, torna-se perigosa. O sorriso permanente funciona como um salvo-conduto. A afabilidade mascara a ineficiência. O fracasso administrativo é compensado por uma foto bem enquadrada, uma frase de efeito, uma lágrima estratégica diante das câmeras.
O poder tem esse vício: convence os menos preparados de que são indispensáveis. Cercados por aduladores profissionais, passam a acreditar que a cidade, o estado ou o país dependem exclusivamente de sua presença. Confundem aprovação momentânea com grandeza histórica. Julgam-se protagonistas de uma epopeia quando, na verdade, mal conseguem administrar o expediente.
A política democrática exige proximidade com o povo. Mas proximidade não é intimidade cenográfica. Governar não é abraçar mais; é fazer melhor. O cidadão não elege um amigo de praça, um animador de auditório ou um distribuidor de afagos. Elege alguém para resolver problemas concretos.
No fim, o deslumbrado pelo poder costuma deixar poucas realizações e muitas fotografias. Sai do cargo convencido de sua própria importância. A história, menos generosa que os bajuladores, geralmente o reduz à sua verdadeira dimensão: a de um homem comum que confundiu popularidade com mérito e aplauso com competência.


Belo texto.
Bom para muitos refletirem.
Parabéns
Belo texto.
Bom para reflexão
Parabéns