Cena

O mangue como território de arte e resistência no MISS

05/11/2025 Isabela Marangoni
Biga Appes

Com a proposta de refletir sobre a relação entre o corpo humano e o ecossistema local — investigando o encontro entre o corpo e o território e abordando temas como pertencimento, resistência e transformação —, as artistas Estela Vajda e Célia Faustino inauguram hoje (5), às 19 horas, no Museu da Imagem e do Som de Santos (MISS), a exposição “Corpo Território – uma poética no manguezal”, que segue em cartaz até 12 de novembro.

Com fotografias de Biga Appes e montagem de Bia Maran, o trabalho traduz a experiência das artistas que atravessam o manguezal e se deixam atravessar por ele. Entre o lodo e a vegetação, seus corpos se fundem à paisagem, dançando com a ausência e o excesso — a terra úmida, o vento e o lixo. “Eu e a Célia já tínhamos essa ideia do manguezal há bastante tempo. Nos inscrevemos em alguns editais, não ganhamos, mas continuamos pesquisando. Precisávamos falar sobre o manguezal. Queríamos unir arte e meio ambiente, colocando o ser humano como parte desse ecossistema e discutindo a interação dos corpos com os animais”, conta Estela.

Arte e consciência

A inspiração veio das visitas aos manguezais da região, embora a realidade encontrada tenha sido diferente do esperado. “Achamos que íamos encontrar o Guará, mas ele está muito raro. O manguezal fotografado estava cheio de lixo e até sofreram podas”, comenta. Ela destaca a relevância ambiental da temática. “O Brasil tem o segundo maior manguezal do mundo, mas cerca de 20% dele já foi destruído. Precisamos chamar atenção para isso”.

A exposição combina fotografia e performance, com figurinos criados pelas próprias artistas, inspirados no Guará. “Cada uma interpretou de uma maneira, interagindo com o ambiente. Optamos pelo tule vermelho, que remete ao pássaro e à rede de pesca, trazendo leveza e transparência às imagens”, explica Estela. Vestidas de vermelho, elas reencenam o gesto da vida que insiste em permanecer, tornando o projeto um chamado à consciência ambiental: não há corpo isolado, não há arte sem ambiente, não há futuro sem escuta e troca.

O projeto contou com a colaboração da fotógrafa Biga Appes, moradora em frente ao manguezal. “Ela conhece bem o lugar e sabia como a luz se comporta em cada estação. A ideia de imprimir as fotos em tecido deu ainda mais transparência e leveza à exposição. O tamanho das imagens ficou perfeito para o efeito que queríamos transmitir”, acrescenta Estela.

A experiência no manguezal também trouxe desafios físicos e de segurança. “É muita lama e lixo, com vidro e objetos cortantes. Tivemos que ter cuidado para não nos machucar”, comenta. Além disso, a presença das artistas teve caráter educativo. “Crianças da região vieram nos observar e muitas não sabiam que aquilo era um manguezal, achavam que era só o mar. Foi impactante perceber que a arte também conscientiza ambientalmente”.

Apresentações

A exposição não ficará restrita ao MISS. O projeto, contemplado pelo 11º FACULT – Fundo de Assistência à Cultura de Santos (2024), prevê apresentações em três outros locais, incluindo a Vila Criativa da Penha e o Arte no Dique, onde os alunos participarão de intervenções com colagens nas fotos.

Após o MISS, a mostra segue para o Arte no Dique, em 24 de novembro, às 14h20, em atividade coletiva com trabalhos de alunos do Instituto e exibição do vídeo “Mangue Terra Comum”, de Maya Andrade. A obra propõe uma reflexão sobre pertencimento, território e ancestralidade, explorando o manguezal como bioma, lar e corpo vivo.

Em seguida, a exposição chega à Vila Criativa da Penha, no dia 25 de novembro, às 11 horas, no bairro do Saboó, onde permanecerá até 5 de dezembro.

Sobre o impacto esperado no público, Estela afirma. “Teremos postais para levar, mas o mais importante é que cada pessoa carregue a consciência da importância do manguezal, que depende de políticas públicas e atitudes individuais. É um ecossistema do qual todos dependemos e muitas vezes não damos valor”.

No MISS, “Corpo Território” será apresentada junto à exposição “Paquetá: Fragmentos de uma Cidade em Transformação”, promovendo um diálogo entre diferentes olhares sobre cidade, ambiente e corpo.