Cena

Netflix e a janela de 45 dias

19/01/2026 Gustavo Klein
Divulgação

A decisão da Netflix de manter os filmes da Warner Bros. em cartaz nos cinemas por pelo menos 45 dias representa um recuo em relação a ideias que vinham circulando no mercado sobre janelas muito mais curtas entre a estreia nas salas e a chegada ao streaming. A mudança foi confirmada pelo executivo Ted Sarandos e busca reduzir a tensão com exibidores e profissionais do setor, que veem esse intervalo como essencial para a sobrevivência do cinema tradicional.

Durante anos, o período de cerca de um mês e meio se consolidou como padrão para que um filme tenha tempo de encontrar seu público nas salas, gerar bilheteria e criar repercussão antes de ser disponibilizado para assistir em casa. A possibilidade de reduzir essa janela para poucas semanas vinha sendo encarada como uma ameaça direta às salas de cinema, especialmente em um momento de recuperação econômica ainda frágil após a pandemia.

Ao reafirmar o compromisso com os 45 dias, a Netflix sinaliza que não pretende romper completamente com o modelo tradicional de exibição, mesmo sendo uma em presa que construiu sua força justa mente fora dele. A medida também indica um reconhecimento de que grandes lançamentos continuam dependendo da experiência coletiva do cinema para se consolidar cultural e financeiramente.

Para o público em geral, a decisão significa que os filmes da Warner continuarão estreando primeiro no cinema e só depois chegarão ao streaming, sem mudanças bruscas na forma de consumo. Para a indústria, é um gesto de equilíbrio entre a força das plataformas digitais e a manutenção de um sistema que ainda sustenta boa parte da produção cinematográfica mundial.

E facilita muito, claro, a aprovação da compra da Warner pela Netflix, que ainda precisa passar pelos órgãos de controle do governo americano. A aquisição tem sofrido críticas tanto da indústria do cinema como um todo como especialmente da Paramount, estúdio que disputa com a Netflix a compra da quase falida – e um dia muito poderosa Warner. As duas empresas brigam para controlar um acervo que tem de Game of Thrones a O Senhor dos Anéis, de Friends a Big Bang Theory e Two and a Half Men, além de animações clássicas do Pernalonga e Patolino e a totalidade das produções da Hanna-Barbera e do Cartoon Network. Quem tiver isso terá a liderança do streaming.