Esportes

Multicampeão, Zé Roberto Guimarães enaltece admiração por Negrelli

12/04/2026 Matheus Vieira
Fernando Yokota/Jornal da Orla

A exposição em homenagem ao craque José Oswaldo da Fonseca Marcelino, o Negrelli, que relembra a trajetória vitoriosa deste grande esportista trouxe ao Teatro Guarany, o melhor técnico de esportes coletivos do mundo: José Roberto Guimarães, dono de três medalhas olímpicas de ouro: 1992, em Barcelona, com a Seleção Masculina, 2008, em Pequim, e 2012, em Londres, com a Seleção feminina. Na visita a Santos, Zé Roberto falou da importância de Negrelli e os levantadores Arlindo e Geraldinho para o vôlei brasileiro.

O que significa a cidade de Santos e o time do Santos Futebol Clube para você?

Santos é uma cidade especial. Sempre esteve presente nos Jogos Abertos, com equipes muito fortes, marcantes e eu fico muito feliz de estar aqui. Geralmente, as finais dos Jogos Abertos eram Santos e Santo André e a gente sempre perdia, não sei porquê (risos). E o time do Santos tinha, na minha opinião, os melhores levantadores que já vimos em quadra: Arlindo e Geraldinho. Era um time em que eu me inspirava muito, recheado de ídolos para a minha geração.

Há uma lenda urbana de que você descia para Santos e gravava os treinos e jogos do time. É verdade?

É verdade sim, gravei muitas vezes para estudar. Geraldo tinha um dos toques de bola mais bonitos que eu já vi. A gente tinha curiosidade em saber como ele fazia aquilo, ele dizia que treinava com bola de basquete, entre outras coisas. A gente ia lá treinava, mas não ficava igual. Muitos de nós éramos autodidatas, e eu descia de Santo André para ver esses caras jogarem na praia.

Você chegou a ser convidado para jogar pelo Santos?

Fui convidado duas vezes, mas só pude jogar uma: em um campeonato em Poços de Caldas. As duas vezes fui convidado pelo Negrelli. Da segunda, não pude aceitar por ter uma série de outros compromissos. De qualquer forma, foi uma honra atuar ao lado desses caras que eu me inspirava e que se tornaram meus amigos.

Quem foi o Negrelli pra você?

Negrelli foi um anjo que passou na minha vida. Uma pessoa que nos ajudou muito na época em que estávamos começando. Nos momentos de seleção, ele sempre esteve ao nosso lado, apoiando os mais jovens, passando o conhecimento que ele tinha. Ele deixou muita coisa importante para mim de valores, treinamento, dedicação… Foi uma grande referência para mim como jogador, mas principalmente como pessoa. Era um cara que colocava a gente no nosso lugar, quando a gente achava que tava com a bola toda, que podia vencer de qualquer um ele falava: ‘Ei, calma, abaixa a bola, não é bem assim’.

E como foi o seu último encontro com o Negrelli?

A última viagem do Negrelli foi comigo. Eu participei de um almoço da geração deles, dos mais velhos. Na verdade, me intrometi, pedi para participar e eles deixaram. Aí, o Negrellli estava lá e me pediu para conhecer Saquarema, o Centro de Treinamento das Seleções de vôlei. Fiquei surpreso que ele nunca tinha conhecido e claro que o levei. Ele passou duas semanas lá comigo, reviveu parte daquilo que fez ele brilhar, viu a evolução dos treinamentos – que só aconteceram por causa dele e de tantos outros que deram a vida para o esporte crescer. Por ele ser esse cara, às vezes eu estou em quadra e penso nele, emocionado, como se fosse um o que eu vou fazer agora. Ele faz muita falta.
O Santos teve ao mesmo tempo, o melhor time de futebol do mundo e o melhor time de vôlei da América do Sul?
Além do Negrelli, do Geraldo e Arlindo, também teve o Pedrão, um dos maiores ídolos do vôlei brasileiro, que foi o melhor jogador brasileiro na conquista dos Jogos Pan-americanos de 1963, em São Paulo, além do Sérgio Telles, Joreca, Serginho. E do grande técnico Roberto Douglas Machado, que formou os maiores times do Santos.

Quais os desafios para ser um técnico vencedor?

Uma boa equipe e estudos. Muitas vezes eu nem dou o treino, acabo ficando de auxiliar, quem treina é o segundo treinador. Eu brinco que hoje eu não vivo sem um ginecologista. Eu sou treinador de feminino, preciso entender a biologia das mulheres. Descobri que existem 150 sintomas possíveis de TPM. Digo isso na questão de performance mesmo, às vezes elas sentem dores, ficam irritadas e reconhecem que não estão na sua melhor condição, minha função é acolher, não ignorar isso. Agora eu sei o nome de todas as pílulas possíveis e como isso pode afetar o rendimento das atletas, essas coisas têm que ser estudadas.

Você disse antes da entrevista que acabou de voltar da Itália e passou na Turquia, para conversar com as jogadoras que estão por lá. Como está a preparação para 2028?

Isso, passei para conversar olho no olho com elas, eu gosto disso. Nesse ano nós temos dois desafios: o primeiro é o VNL, começa dia 3 de junho; e o segundo é em setembro, o sul-americano, de 15 a 20, se não mudar a data, que é classificatório para a Olimpíada de 2028, em Los Angeles, onde eu pretendo encerrar minha carreira. Já vou para a décima Olimpíada, é dez vezes quatro, risos, mas eu digo sempre que ainda não cheguei lá, nós vivemos de resultado e espero mesmo que a gente consiga chegar. É uma seleção com boas perspectivas para pódio, estamos preparados para brigar com qualquer time do mundo. E quero deixar um desafio, para mim: em 2028, se ganharmos o ouro, eu volto aqui em Santos para homenagear mais uma vez meu amigo Negrelli.