
Muito além da autora de Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus é apresentada em toda a sua complexidade na exposição “Carolina Maria de Jesus: um olhar crítico sobre o Brasil”, em cartaz no Saguão Central da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Campus Baixada Santista (R. Silva Jardim, 136, Vila Matias, Santos).
Aberta ao público até 3 de julho, a mostra faz parte das ações da universidade voltadas à valorização da memória e da produção intelectual de mulheres negras brasileiras.
A curadora e professora Renata Gonçalves explica que a exposição nasceu de discussões sobre pertencimento, memória e representatividade dentro da universidade. O projeto está ligado ao Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB) e à Política Carolina Maria de Jesus, criada para fortalecer ações de promoção da igualdade racial na instituição. “Nos últimos anos, venho pesquisando intelectuais negras e suas contribuições, porque elas estão entre as figuras mais invisibilizadas quando pensamos em produção de conhecimento”, afirma.
Segundo Renata, apesar de Carolina ser reconhecida internacionalmente, seu legado ainda é pouco conhecido no próprio país. Para ela, dar visibilidade à escritora também ajuda a criar referências para estudantes e grupos historicamente excluídos. “Não se trata apenas de permanência estudantil do ponto de vista econômico. É também reconhecer as contribuições do povo negro, dos povos indígenas e de tantas pessoas que foram apagadas da história oficial”.
Além de ‘Quarto de Despejo’
A mostra apresenta uma Carolina que vai além da imagem da escritora da favela. “Não eliminamos o lenço nem o Quarto de Despejo, mas mostramos uma Carolina para além dessas imagens. Ela foi uma intelectual fundamental para compreender o Brasil”, explica.
A exposição também convida o público a revisitar sua escrita sob um novo olhar. Para Renata, estudos recentes ajudam a compreender que a linguagem utilizada por Carolina não deve ser vista como erro, mas como expressão de uma herança cultural própria. “Hoje entendemos que Carolina não escrevia de forma errada. Sua linguagem carrega influências da cultura africana e do que Lélia Gonzalez chamou de ‘pretuguês’. Sua escrita revela outras formas de conhecimento e expressão”.

Espelho do Brasil
Mais de 60 anos após a publicação de Quarto de Despejo, a obra de Carolina continua levantando debates sobre desigualdade, racismo e exclusão social. “Carolina nos obriga a olhar para o espelho enquanto sociedade. Ela nos faz discutir racismo, o lugar das mulheres, a produção de conhecimento e até aquilo que consideramos um saber legítimo”.
Construção coletiva
Desenvolvida de forma colaborativa, com participação ativa de estudantes na transformação do espaço, a mostra está dividida em diferentes núcleos temáticos.
Um deles aborda a questão da moradia a partir da frase célebre da autora: “A favela é o quarto de despejo da cidade”. Outro discute a fome, tema central de sua obra. “Enquanto o Brasil dos anos 1950 celebrava o desenvolvimento e a modernidade, Carolina mostrava uma realidade ignorada: a população negra e trabalhadora continuava passando fome”.
Há ainda espaços dedicados à construção de sua imagem pública, às relações com intelectuais e políticos, às traduções de seus livros e às releituras de sua trajetória no cinema, na música e em outras linguagens artísticas. “Temos uma Carolina elegante, usando pérolas, fotografada em diferentes contextos. Queríamos romper com a imagem única da mulher de lenço na favela”.
Entre as referências apresentadas está também o novo longa-metragem sobre a escritora, estrelado pela atriz Maria Gal.

Cartas para Carolina
Um dos ambientes mais marcantes da exposição é um corredor decorado com rendas e iluminação suave, pensado para transmitir acolhimento. “É como entrar na casa de uma avó. À noite, a iluminação deixa tudo ainda mais especial. É o espaço que mais me emociona”.
Outro destaque é o local onde visitantes podem escrever cartas para Carolina. A proposta é criar um diálogo simbólico entre o público e a escritora. “A ideia é possibilitar um encontro com Carolina. Que as pessoas possam conhecê-la, reencontrá-la e conversar com ela”.
A exposição também recria simbolicamente o barraco onde a autora viveu na favela do Canindé. Mas, segundo a curadora, o espaço ganha um novo significado. “Recriamos o quarto de despejo como um lugar de produção de conhecimento”.
Convite à leitura
Para Renata Gonçalves, o maior resultado da exposição será despertar o interesse de novos leitores pela obra de Carolina Maria de Jesus. “Se conseguirmos fazer com que as pessoas conheçam Carolina, já teremos alcançado um grande objetivo”.


Estive na abertura da exposição, é realmente emocionante entrar e conhecer melhor o universo de Carolina Maria de Jesus. O papel da
universidade pública é fundamental para difundir nossa cultura!