Cena

Mostra fotográfica revela a força cultural da Procissão de Iemanjá

08/06/2026 Isabela Marangoni
Marcelo Martins/PMS

A tradição, a ancestralidade e a potência das religiões de matriz africana ocupam espaço de destaque na Galeria de Artes Nelson Penteado de Andrade, na Prodesan (Praça dos Expedicionários, 10 – Gonzaga), com a exposição fotográfica dedicada à Procissão de Iemanjá. A mostra reúne imagens históricas, objetos simbólicos e registros de uma celebração que, ao longo de 26 anos, se consolidou como uma das maiores manifestações afro-brasileiras do país. A exposição pode ser visitada gratuitamente até sexta-feira (12), das 8h às 18h.

Coordenador da procissão e responsável pela curadoria da mostra, o babalorisá Marcelo de Ologunédé explica que a mostra nasceu do desejo de preservar a memória construída ao longo das décadas. “A procissão tem 26 anos e, durante esse tempo, foi crescendo, causando transformações e se tornando uma referência das matrizes africanas como manifestação popular”.

Reconhecimento cultural
Reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial de Santos, a Procissão de Iemanjá também integra oficialmente o calendário turístico e cultural do município e do Estado de São Paulo. Segundo Pai Marcelo, o evento atrai participantes de diversas regiões do Brasil. “Hoje são centenas de pessoas do país inteiro que vêm para a Procissão de Iemanjá de Santos. Ela tomou uma proporção gigantesca”, destaca.

A exposição apresenta fotografias de diferentes edições da celebração, além de indumentárias e objetos utilizados nos cortejos realizados na Ponta da Praia. O processo de seleção do material, segundo o babalorisá, foi desafiador diante da quantidade de registros acumulados ao longo dos anos. “Tínhamos muito material guardado. Foi difícil escolher, porque são imagens feitas por muitos fotógrafos e pessoas que acompanharam essa trajetória”.

Entre as imagens expostas, o público encontra cenas marcadas pela emoção, pela devoção e pela força da ancestralidade presente na festividade. A proposta é proporcionar uma imersão visual na tradição que transforma a orla santista em um espaço de fé, encontro e celebração da cultura afro-brasileira.

Mais do que uma manifestação religiosa, Pai Marcelo ressalta que a procissão também representa um importante movimento cultural e social. “As pessoas vão encontrar a grande cultura afro-brasileira, essa diáspora entre Brasil e África, além do sincretismo religioso que faz parte da nossa história”, explica.

Registros simbólicos
A mostra também destaca personagens que marcaram a trajetória da procissão, entre lideranças religiosas, artistas e militantes culturais. Um dos registros mais simbólicos para Pai Marcelo é a fotografia ao lado de Tia Egle, referência no combate à intolerância religiosa e ao racismo estrutural na Baixada Santista. “Ela foi a primeira musa do Afoxé Obá Aláàfin, grupo que nasceu dentro do terreiro e acompanha a procissão todos os anos. Era uma mulher negra, militante, guerreira, que deixou um legado muito importante para a cidade”, relembra.

Ao longo dos anos, a Procissão de Iemanjá também passou a movimentar diferentes setores da economia criativa e do turismo local. O evento reúne apresentações de dança, música, percussão, capoeira e manifestações populares, além de abrir espaço para o afroempreendedorismo. “A procissão se tornou uma vitrine para grupos culturais e artistas da região. Também movimenta a economia da cidade, com hotéis, restaurantes, bares e mais de 80 expositores ligados ao afroempreendedorismo”, afirma.

Promovida pela Casa de Culto Afro Brasileiro Ilê Asé Sobo Oba Àrírà, a exposição reforça a valorização das manifestações de matriz africana e sua contribuição para a identidade cultural santista. Para Pai Marcelo, iniciativas como essa também ajudam a ampliar o respeito e combater preconceitos históricos. “As religiões afro-brasileiras guardam um conhecimento ancestral muito importante. Através da arte, da música, da dança e da cultura conseguimos promover respeito, igualdade e liberdade de crença”.

E destaca o sentimento de pertencimento que espera despertar no público. “O santista deve se orgulhar de ver tantos momentos lindos feitos à beira-mar. A procissão traz uma mensagem de amor, respeito e cultura de paz. Santos mostra que podemos ocupar o mesmo espaço com liberdade, igualdade e acolhimento”.