
A televisão mundial ficou um tantinho mais silenciosa esta semana. Morreu Lalo Schifrin, o argentino que escreveu talvez o tan-tan-tan-tan, tan-tan-tan-tan mais famoso do planeta. Sim, o autor do tema de “Missão Impossível” — aquele que faz qualquer um se sentir um espião prestes a descer pelo teto de uma galeria de arte — se despediu aos 91 anos, em Los Angeles.
Nascido Boris Claudio Schifrin em Buenos Aires, em 1932, Lalo foi um daqueles raros casos em que genialidade e versatilidade caminharam lado a lado, de mãos dadas e sambando. Filho de um violinista da Orquestra do Teatro Colón, cresceu num ambiente em que a música era tão essencial quanto o mate dos argentinos. Ainda moleque, já brincava no piano, mas a vida quis que ele também se apaixonasse pelo jazz.
Nos anos 50, foi para Paris estudar com Olivier Messiaen, um compositor francês que parecia ter antena parabólica no cérebro, tamanha a abertura para sons e ideias. Foi lá que Lalo entendeu que podia misturar tudo: jazz, música clássica, tango, bossa nova — se deixassem, ele misturava até barulho de buzina.
Quando voltou à Argentina, virou uma espécie de messias do jazz local. Mas Buenos Aires era pequena demais para tanto swing. Então, em 1960, mudou-se para os EUA, onde se aproximou do trompetista Dizzy Gillespie e virou arranjador e pianista de sua banda. A partir daí, entrou de cabeça na trilha sonora de Hollywood. E que cabeça!
A lista de trilhas que Lalo criou ou ajudou a criar daria uma playlist de respeito. Além de “Missão Impossível”, fez temas para “Mannix”, “Starsky & Hutch”, “Mission: Impossible II” (já no cinema) e o tenso “Bullitt”, com Steve McQueen e aquela perseguição antológica pelas ladeiras de São Francisco — talvez a cena de carro mais imitada de todos os tempos.
Schifrin tinha uma marca registrada: ele pegava a sofisticação do jazz e injetava na veia de filmes e séries de ação. De repente, aquilo que poderia ser um “plim-plim” genérico virava uma obra cheia de nuances, sincopada, cheia de esquinas sonoras. Era impossível ficar parado ouvindo.
Não à toa, colecionava prêmios e indicações: foram seis Grammys, quatro indicações ao Emmy e seis ao Oscar (embora a estatueta dourada tenha teimado em não aparecer). Também levou o Oscar honorário em 2019, um “desculpa pelo vacilo” que Hollywood às vezes dá para quem eles deviam ter premiado antes.
Além das trilhas, Lalo era um músico inquieto. Gravou discos próprios, regia orquestras, escrevia arranjos e tinha uma queda especial por misturar música clássica com ritmos latinos. Seu álbum “Jazz Meets the Symphony” virou série e lotou teatros mundo afora.
Na vida pessoal, Schifrin parecia ter o mesmo ritmo elegante que imprimia às suas composições. Casado por décadas com Donna, com quem teve dois filhos, vivia longe dos holofotes quando não estava no palco ou no estúdio. Dizia que não gostava de repetir fórmulas, que o pior medo de um compositor era virar “refém do próprio sucesso”.
Difícil falar de Lalo sem mencionar “Missão Impossível”, claro. O tema virou praticamente um patrimônio da humanidade. Já foi remixado, regravado, tocado por bandas marciais, orquestras sinfônicas, DJs e até em festinhas de criança (é sério). Cada nota daquele compasso 5/4 — uma escolha rítmica ousada e, na época, quase alienígena — é um convite para um mundo de espionagem, explosões cronometradas e malabarismos mirabolantes.
Mas a genialidade de Lalo vai muito além disso. Ele sabia fazer música que grudava, mas que também tinha conteúdo, sutileza, humor e inteligência. Era um homem que entendia a alma do jazz, mas também compreendia como fazer o público sentir cada cena na espinha.
A notícia de sua morte entristeceu o mundo da música e do cinema. Artistas, colegas e fãs lotaram as redes sociais com homenagens. Tom Cruise, por exemplo, escreveu que “Lalo Schifrin deu vida ao impossível” — e vamos combinar, não está errado.
Agora, enquanto o mundo tenta se acostumar com o silêncio que Lalo deixou, fica a certeza de que seu som vai continuar ecoando nos elevadores, nos fones de quem revisita séries antigas ou naquela playlist para limpar a casa fingindo ser um agente secreto.
Lalo Schifrin mostrou que música de cinema não precisa ser só pano de fundo. Ela pode ser personagem principal, protagonista de uma missão impossível que deu mais do que certo. E, cá entre nós, ninguém vai apagar o pavio aceso por ele.


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