
A construção civil da Baixada Santista vive um momento singular. O setor ainda corre atrás da recuperação completa do impacto da pandemia e caminha por um cenário de juros elevados, mas a região continua protagonista, atraindo investimentos e novos moradores, que se deslocam para o litoral, impulsionados pela qualidade de vida e proximidade com a capital de São Paulo. O Jornal da Orla conversou com exclusividade com o presidente da Associação dos Empresários da Construção Civil da Baixada Santista (ASSECOB), Mateus Teixeira.
Como o senhor avalia o atual momento do mercado da construção civil na Baixada Santista, especialmente após os impactos da pandemia, os atuais juros e com a retomada econômica?
O mercado imobiliário na região permanece aquecido, com destaque para Santos e Praia Grande, refletido no volume de lançamentos e na variedade de produtos ofertados. Mesmo com as taxas de juros ainda elevadas, o ritmo de novos empreendimentos segue positivo. Um número expressivo de unidades está sendo adquirido tanto para investimento (principalmente os imóveis mais compactos), quanto para moradia. Destaca-se o movimento de upgrade de imóvel por parte de moradores locais e a chegada de famílias de outras regiões, atraídas pela qualidade de vida da Baixada e pela proximidade com São Paulo, o que favorece o modelo de trabalho híbrido.
Quais são os principais desafios enfrentados pelas construtoras da região, especialmente em relação à burocracia, licenciamento e acesso a crédito para novos empreendimentos?
Devido ao grande número de lançamentos, as prefeituras em alguns momentos ficam sobrecarregadas, até porque os departamentos de obras são responsáveis por todos os projetos em cada cidade, desde casas, comércios, hotéis, empreendimentos etc. Os pluri habitacionais tem alguns requisitos a mais para cumprir em outros setores o que gera um pouco mais de burocracia. Em Santos, dois grandes desafios se destacam: a escassez de terrenos disponíveis, o que eleva o custo das áreas, e a falta de mão de obra qualificada – um problema que também afeta outros setores da economia local.
A Baixada Santista apresenta uma demanda crescente por habitação popular. Como o setor tem se organizado para atender a esse público de forma mais sustentável e com qualidade?
Na Zona Leste de Santos, por exemplo, a viabilidade de projetos populares, dentro do programa Minha Casa, Minha Vida, é bastante desafiadora. Há alguns bons exemplos de construtoras que estão conseguindo avançar nesse segmento, mas a equação demanda muito estudo: envolve localização estratégica, custos de construção e outros fatores determinantes para o sucesso do empreendimento. A expectativa é que, com o tempo, esse mercado ganhe força, principalmente com projetos de renovação urbana em áreas um pouco mais afastadas da orla, mas que já contam com boa infraestrutura.
A criação da 4ª faixa do Minha Casa, Minha Vida, voltada para famílias com renda de até R$ 12 mil, pode impactar o mercado local? Existe expectativa de aumento nos lançamentos voltados a esse público?
Embora o orçamento inicial da faixa 4 ainda seja limitado, a medida representa uma sinalização importante de que o programa começa a abranger novos perfis de público. Em nível nacional, os números mais recentes da pesquisa realizada pela Brain Inteligência Estratégica para a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e o Sinduscon-SP apontam que o MCMV ampliou sua participação no mercado em 15%. Entre janeiro e março deste ano, foram comercializadas 102.485 unidades residenciais, considerando o universo de 221 cidades participantes do levantamento.
Como a Assecob tem atuado junto ao poder público para fomentar políticas que incentivem a construção civil e a geração de empregos na região?
Participando de conselhos e trazendo propostas visando melhorias, ideias que já se mostraram positivas em outras cidades e países. A geração de emprego é muito grande: mais de 14% de toda a mão de obra dos municípios está ligada a cadeia da construção. A qualificação de mão de obra é uma preocupação constante. Muitas vezes, a formação do trabalhador acontece diretamente no canteiro de obras: ele inicia em funções auxiliares e vai aprendendo com os mais experientes até conquistar novas oportunidades na carreira. Contudo, a oferta de formação técnica e acadêmica seria o cenário ideal. Por isso, a Assecob tem mantido diálogo constante com as prefeituras e instituições de ensino profissionalizante para ampliar essas oportunidades.
Existe um movimento entre as construtoras da Baixada para integrar práticas sustentáveis e tecnologias verdes nos novos empreendimentos? Essa é uma demanda crescente dos consumidores?
Cada vez mais, os empreendimentos buscam incorporar soluções sustentáveis, alinhadas às exigências e expectativas do público. Entre os exemplos mais frequentes estão: uso de materiais reciclados, processos mais eficientes gerando menos resíduo, materiais com maior desempenho, captação de água de chuva, instalação de painéis fotovoltaicos e calçadas com áreas permeáveis. Essas práticas são cada vez mais comuns em imóveis recém-construídos, especialmente em Santos
A verticalização urbana tem sido um tema recorrente em diversas cidades da Baixada Santista. Qual é a posição da Assecob sobre esse processo? Como conciliar o adensamento populacional com a preservação ambiental e a infraestrutura urbana?
Santos hoje já é a cidade mais verticalizada do país. A verticalização, muitas vezes vista com certo preconceito, é uma solução inteligente para conter a expansão urbana desordenada. O adensamento reduz a necessidade de deslocamentos longos e facilita o acesso das pessoas a seus locais de trabalho, lazer e serviços. Além disso, os projetos verticais modernos permitem maior distanciamento entre os edifícios, favorecendo a ventilação natural e a qualidade ambiental.


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