Esportes

Marcelo Fernandes muda a Ponte Preta de patamar

01/11/2025 Eduardo Silva
Marcos Ribolli/PontePress

Uma conquista digna de um roteiro de um filme. Uma mudança inesperada de time, numa cidade conhecida pela rivalidade de suas equipes, deu a chance ao treinador Marcelo Fernandes de comemorar um título nacional com uma das equipes mais tradicionais do Brasil.

A Associação Atlética Ponte Preta, de Campinas revelou grandes jogadores para o Brasil (como o craque Dicá e os zagueiros Oscar e Polozzi). O clube também ficou famoso por formar goleiros que foram titulares da Seleção Brasileira em Copas do Mundo (Valdir Peres, em 1982, na Espanha, e Carlos, em 1986, no México). Além disso, ainda tem uma torcida fanática, que esperou 125 anos por este momento.

E isso só foi possível graças ao bom trabalho de Marcelo Fernandes, dentro e fora de campo. Nas quatro linhas, ele teve a capacidade de preparar o time para uma arrancada espetacular, com uma incrível sequência de 6 vitórias. Fora dos gramados, soube administrar um grupo de boa qualidade técnica, mas que passou meses sem receber salários. “Eu cheguei com esse problema no clube. A Ponte tem um dinheiro retido por ações trabalhistas. E o presidente Marquinho Eberlin tentou ajudar de todas as formas. A minha chegada ali foi para falar a realidade para os jogadores. A gente vai para casa? Vocês querem ir, nós vamos, mas a gente só vai solucionar o problema se jogar e ganhar. Foi isso que falei. E eles acreditaram. Os jogadores souberam separar o problema e eles pensaram na carreira deles. Profissionais exímios e isso foi fundamental para o desfecho final”.

Para quem não acompanhou a trajetória do treinador, que estava no Guarani e começou bem com 3 vitórias, mas uma derrota para o Náutico custou o emprego dele. Dezesseis dias depois, foi chamado pela rival Ponte Preta para substituir Alberto Valentim, contratado pelo América Mineiro. “Para os leitores terem uma ideia, a distância dos estádios de Ponte Preta e Guarani, em Campinas, é a mesma da Vila Belmiro para Ulrico Mursa, aqui em Santos. No início, teve desconfiança, sim, mas nós chegamos na Ponte faltando 3 rodadas para terminar a fase de classificação. Bem colocada, pelo belo trabalho do Alberto Valentim. Aí fizemos 6 jogos seguidos, com 6 vitórias e diante do Náutico, em casa, garantimos o acesso”.

Só que a rivalidade da cidade de Campinas é tão grande que voltar para a Série B já não era o suficiente, porque ainda faltava a parte final desse script cinematográfico. “Fomos para Brusque e eu optei por levar só 3 titulares para poupar os principais jogadores para o clássico contra o Guarani, na última rodada. Jogamos bem em Brusque, mas perdemos por 3 a 1 e aí ficou a seguinte situação. Imagine se o Guarani ganha da gente, na última rodada, dentro do nosso Estádio Moisés Lucarelli? Nós já tínhamos garantido o acesso, mas se eles vencessem iriam para a final e nós ficaríamos fora do jogo do título. Então, a semana foi tensa. Seria uma catástrofe para o pontepretano. Mas fizemos um jogo impecável em casa, ganhamos o derby. Garantimos a vaga na decisão e não deixamos o nosso rival subir”.

A final contra o Londrina também teve cenas de cinema. Marcelo Fernandes determinou que os jogadores não fossem para os vestiários no intervalo. E eles ficaram no centro do gramado, recebendo toda a energia dos torcedores. “Uma coisa minha. Eu vivi isso, como torcedor santista, em 1995, na semifinal do Brasileirão contra o Fluminense, no Pacaembu. E fiz isso, como técnico do Santos, no título de 2015 contra o Palmeiras. A atmosfera do Estádio Moisés Lucarelli ajudou muito e a nossa torcida merecia isso”.

O resultado final todo mundo já sabe. Ponte Preta campeã, com seu primeiro título nacional, invasão do gramado e uma festa gigantesca”. Marcelo é só felicidade. “Muito feliz. Muito contente. Um clube especial, que me abriu as portas e a gente conseguiu chegar lá com nosso trabalho e com a nossa humildade e dar de presente a essa torcida. Foi um trabalho muito árduo para conquistar esse título que entrou pela história”.

Marcelo ressaltou a dedicação de todos os jogadores. Dos mais experientes aos mais jovens que ele foi buscar na base do clube, mas fez questão de destacar o meia Elvis. “É craque de bola, liderança técnica, um cara tão especial, acreditou no nosso trabalho, como capitão. Pena que não tem mais camisa 10 como ele no futebol brasileiro. Ele é altamente decisivo. Ajudou muito a Ponte Preta, tenho um carinho enorme por ele”.

O treinador ainda não sabe se vai continuar em Campinas, apesar do respeito pelo clube. “O meu contrato se encerrava com a Série C, mas a Ponte tem uma eleição ainda em novembro, e a gente vai aguardar. “Eu vou viajar com a família para descansar”.

O título foi muito importante para Marcelo, que agradece aos parceiros Marcelo Copertino e Marco Alejandro. Também demonstra muita gratidão pelo Santos. “Eu tive 13 anos no Santos, tenho um título paulista, estou entre os poucos treinadores campeões pelo clube. Eu só tenho a agradecer ao Santos pela chance de ter sido campeão e trabalhar com técnicos altamente qualificados. Eu precisava sair e as oportunidades foram muito importantes. Depois desse título, a gente marca de vez a nossa continuidade no cenário”.

O garotinho que jogou bola na quadra do Conjunto BNH, no Bairro da Aparecida, com o técnico João de Carvalho. O menino que correu todos os campos onde fica hoje o Shopping Praiamar, jogou bola no Saldanha e foi campeão por vários clubes de várzea, nunca perdeu as raízes. Amadureceu e está pronto para novos desafios, mas nunca vai esquecer do ano de 2025, quando ele foi campeão brasileiro da Série C. Um verdadeiro roteiro de cinema, que só poderia terminar de forma bem positiva. “Graças a Deus, eu fiz parte desse filme e estou muito feliz com o final dele”.