Cena

Luiz Buscapé transforma vivência periférica em fotografia de potência

30/03/2026 Isabela Marangoni
Luiz Buscapé

Com imagens sensíveis e diretas sobre o cotidiano da periferia, a exposição ‘A fotografia do Morro’, de Luiz Buscapé, revela as múltiplas camadas da vida nos morros da chamada “Cidade Alta”, em Santos. Em cartaz na Associação Comercial de Santos (Rua XV de Novembro, 137, Centro), a mostra segue aberta ao público até 24 de abril, com entrada gratuita.

A relação de Buscapé com a fotografia começou de forma despretensiosa, ainda na adolescência, quando o skate ocupava o centro de sua rotina. “Comecei meio por acidente, com 16, 17 anos. Andava de skate com meus amigos e alguém precisava filmar as manobras”, relembra.

Entre uma gravação e outra, o olhar começou a se deslocar para o entorno: cenas cotidianas, personagens anônimos, detalhes urbanos. “Essas filmagens viraram uns curta-metragens… uma pedra, um muro que chamava atenção, uma senhora sentada sempre no mesmo lugar. E, eventualmente, virou fotografia de rua. Aí me apeguei de vez”.

Vivência urbana

Criado nos morros e habituado a circular por diferentes regiões da cidade, o fotógrafo encontrou nos contrastes urbanos uma matéria-prima estética e política. “Ver a diferença entre a periferia, o centro e bairros como o Gonzaga moldou como eu enxergo histórias. Eu sempre busquei esses contrastes”.

A trajetória, no entanto, esteve longe de ser linear. Aos 18 anos, tentando se sustentar, Buscapé enfrentou as barreiras de um mercado que define como elitista. Sem recursos e pressionado a sair de casa cedo, encontrou na construção civil uma forma de sobrevivência. “Foi o único trabalho que me manteria. Fui ser peão de obra”, conta.

Durante cinco anos, conciliou o trabalho pesado com a fotografia. “Carregava cimento de segunda a sexta e, no fim de semana, fazia freelance: evento, ensaio, o que aparecesse. E mesmo assim pensava: vou dar um jeito de ter fotografia na minha vida”.

Foi nesse período que sua produção ganhou densidade. Ao registrar o cotidiano das obras e da periferia, construiu um olhar atravessado pela experiência direta. “Eu puxava a câmera do bolso no meio do serviço. Isso me dava uma proximidade absurda. Eu estava vivendo aquilo. Comia com eles, carregava saco de areia com eles. Isso muda completamente o olhar”.

Essa perspectiva de pertencimento é uma das marcas mais fortes de seu trabalho. Suas imagens não partem de um olhar externo ou exótico, mas de quem vive o território retratado — o que transmite nas fotografias uma potência que revela dureza e beleza sem romantização.

Potência criativa

A mostra apresentada na ACS reúne imagens produzidas ao longo desse percurso e propõe mais do que um recorte documental: uma reflexão sobre invisibilidade social e potência criativa. “Me diziam que não é comum ver um pedreiro com olhar sensível. E eu pensava: por que não pode ter mais? Por que não pode ter um motoboy artesão? Eu era exemplo de um sistema que te coloca numa caixa e não te deixa crescer”.

Com curadoria e produção de Andressa Oliveira, a expografia reforça esse diálogo ao incorporar elementos da construção civil — como o uso do concreto em molduras e na instalação central — criando uma conexão direta entre a materialidade das obras e a trajetória do artista. Longe de exaltar o trabalho duro, esses elementos funcionam como vestígios de uma realidade que atravessa sua produção.

Morros

Outro eixo importante da mostra é o território dos morros de Santos, ainda pouco explorado sob a perspectiva cultural e turística. Para Buscapé, há uma distância simbólica a ser rompida. “As pessoas tratam o morro como se fosse outra cidade. Não sobem, não conhecem. Mas é um lugar cheio de história, de potência. Falta incentivo, falta olhar”.

Expor na Associação Comercial representa, para ele, um marco significativo — especialmente por ter chegado ao circuito artístico por caminhos não convencionais. “É uma vitória muito grande. Eu não vim da cena artística, nem do mercado. Vim completamente de fora. Isso é um passo importante, mas eu ainda tenho fome”.

Ao ocupar um espaço institucional, Buscapé não apenas apresenta seu trabalho — ele reivindica presença, visibilidade e continuidade. E deixa um conselho para quem tenta construir um caminho na arte a partir das margens. “Faça o que você ama como um ato de rebeldia. Use a raiva como combustível, mas não se perca. Vá atrás do que te completa”.