
Santos sempre carregou a fama de ser uma cidade de vanguarda, marcada pelo diálogo e pelo fervilhar de ideias em suas esquinas. No entanto, diante de uma realidade cada vez mais hostil para as mulheres, os movimentos sociais locais cobram que o município seja, acima de tudo, um espaço de proteção e memória. É com esse propósito que o Coletivo Feminista Classista Maria vai com as Outras e a tradicional Realejo Livros decidiram unir forças em uma mobilização regional que conecta o aniversário de 25 anos da livraria de rua à campanha nacional pelo Feminicídio Zero.
O marco central dessa união será a transformação do parklet localizado em frente à livraria, na Avenida Marechal Deodoro, 2, no Gonzaga. O ponto, conhecido pela convivência e pelo descanso de moradores e turistas, será revitalizado e transformado em um “Banco Vermelho”. Inspirado em um manifesto que nasceu na Itália e ganhou o mundo, o projeto usa o urbanismo e a cor vermelha para cumprir um papel triplo: honrar a memória das vítimas de feminicídio, alertar os passantes sobre os sinais de relacionamentos abusivos e estampar, de forma explícita, os canais de denúncia, como o Disque 180. “Queremos tirar esses dados da frieza dos relatórios e colocá-los no centro do debate público, onde as pessoas circulam diariamente”, explicam os organizadores da ação.
A necessidade de trazer o debate para as calçadas é amparada por números alarmantes divulgados pela Secretaria de Segurança Pública (SSP) e por órgãos de monitoramento no início de 2026. A Baixada Santista acendeu o alerta vermelho: apenas nos dois primeiros meses deste ano, os índices de violência contra a mulher — englobando agressões, ameaças e mortes — registraram um aumento de quase 20% em comparação ao mesmo período do ano anterior.
O cenário estadual e nacional repete a gravidade. O estado de São Paulo liderou o ranking do primeiro trimestre de 2026 com 86 casos reportados. O avanço mantém a tendência de 2025, ano que já havia registrado o maior número de feminicídios da série histórica. No Brasil, entre janeiro e março deste ano, 399 mulheres foram assassinadas pelo fato de serem mulheres — uma média trágica de uma vítima a cada 5 horas e 25 minutos. Na imensa maioria das ocorrências, os agressores são maridos, namorados ou ex-companheiros.
Trazer essa discussão para a porta de uma livraria carrega um simbolismo profundo. Para o coletivo e para o livreiros, a leitura e o acesso à cultura não são meros passatempos, mas ferramentas políticas cruciais para desconstruir o machismo estrutural na raiz. A literatura humaniza os dados estatísticos, gera empatia e fomenta o pensamento crítico indispensável para romper ciclos de violência.
Somado a isso, o projeto joga luz sobre um fenômeno recente e transformador no mercado editorial: o crescimento expressivo do número de mulheres escritoras, poetisas e pensadoras publicadas. Nas prateleiras da própria Realejo, a presença de narrativas conduzidas por mulheres tem se consolidado ano após ano.
Essa ocupação do espaço literário atua como uma potente rede de fortalecimento. Quando uma mulher escreve e publica suas vivências, dores e processos de emancipação, ela valida a existência e os sentimentos de tantas outras leitoras. Ao se identificarem com histórias de coragem e autonomia, muitas mulheres encontram o suporte emocional necessário para romper o silêncio e buscar ajuda. A literatura de autoria feminina, portanto, atua diretamente na prevenção e no acolhimento.
Para que o parklet do Gonzaga ganhe sua nova identidade visual e a mensagem ganhe as ruas, os organizadores buscam o apoio das pessoas amigas, moradores, comerciantes e empresários da região. A campanha está arrecadando fundos para viabilizar a reforma do espaço, a pintura das frases de conscientização e a ampla divulgação dos canais de proteção.
As contribuições financeiras de qualquer valor podem ser feitas por meio da chave-pix da campanha ou diretamente no balcão da Livraria Realejo, onde interessados também podem buscar informações sobre como colaborar e divulgar a campanha.
A mensagem que ecoa dos livros para as calçadas de Santos é direta: o combate à violência de gênero é um dever coletivo. É preciso sentar para refletir, mas, acima de tudo, levantar para agir. Para contribuir, a conta é do banco Itaú e a chave pix é o CNPJ 04.440.268/0001-03.


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