Política

Lideranças abrem caminhos na vida pública para os filhos

09/08/2025 Marco Santana
Divulgação

Assim como em outras profissões, na política o ofício também passa de pai para filho. A presença dos mesmos sobrenomes por décadas não é um fenômeno apenas brasileiro, mas por aqui ele tem contornos particulares.

O cientista político Fernando Chagas explica que a principal razão de um pai escolher o próprio filho como sucessor de seu espólio político é o desejo de não perder a liderança em seu reduto eleitoral, “além do orgulho de ver o sucessor familiar obter o mesmo sucesso, ou até maior, na sua atividade pública”.

Chagas avalia que esta hereditariedade traz consequências positivas e negativas. “O filho do líder político já começa sua atividade com grande conhecimento do assunto, garantindo a continuidade do trabalho e dos benefícios públicos para a sua região”.

Porém, ocorre também a falta de renovação de ideias e propostas, porque normalmente o familiar deverá seguir, “pelo menos inicialmente, as diretrizes e os costumes do seu pai”, argumenta.

“A grande dificuldade do filho suceder o pai é conseguir se desvincular da força política do seu antecessor e ficar eternamente dependente das orientações do seu líder familiar. Por isso, é fundamental o filho tentar ganhar rapidamente força política e mostrar personalidade própria para assegurar sucesso na atividade pública, independentemente do passado do pai, provando que possui autonomia em suas decisões para o eleitorado”, destaca Chagas.

O especialista salienta que muitos filhos de políticos conseguiram até superar a liderança de seus pais, quando tiveram personalidade para realizar seus trabalhos sem a constante presença e interferência de seus antecessores, demonstrando pensamentos e propostas condizentes com a atualidade e as necessidades da população.

“O herdeiro político pode ter carreira de sucesso, contanto que entenda a pauta atual da população e atenda aos interesses do povo, e não fique restrito apenas às prioridades da família”, finaliza.

Em busca da própria trajetória

Na Baixada Santista, há diversos exemplos de filhos que seguiram os pais e ingressaram na carreira política. Deputado estadual em terceiro mandato, Caio França é filho do ministro do Empreendedorismo, Márcio França, que já foi governador, deputado federal e prefeito de São Vicente. Já o secretário de Turismo de Santos, Thiago Papa, é filho do ex-prefeito de Santos e ex-deputado federal João Paulo Tavares Papa.

Em que momento exato você decidiu que ia seguir os passos de seu pai e ser político?
Caio França- Cresci ouvindo muitas histórias sobre política dentro de casa, o que naturalmente despertou meu interesse desde cedo. Mas foi durante o curso de Direito, na Universidade Católica de Santos, que esse desejo se consolidou. Participar ativamente dos movimentos do centro acadêmico foi decisivo para eu perceber que queria atuar na política, buscando transformação social através da representatividade.

Thiago Papa- Na verdade, foi algo muito natural, nunca foi planejado. Eu já atuava como advogado há alguns anos e sempre acompanhei de perto a dedicação do meu pai à vida pública. Ver o quanto ele trabalhava pelas pessoas e o quanto ele levava a sério o compromisso com a cidade, como prefeito, me inspirou profundamente. Não houve um episódio exato, um momento específico. Foi um processo. Com o tempo, esse desejo de também contribuir com a cidade foi crescendo e amadurecendo naturalmente. E hoje, tenho a chance de fazer isso, com muita responsabilidade e respeito às pessoas e ao exemplo que sempre tive em casa.

O que tem de positivo ser filho de político? Encurta caminhos?
Caio França- Sem dúvida, ser filho de um político conhecido encurta caminhos, especialmente no início. Na minha primeira eleição, em 2008, isso fez diferença. Mas desde então, sempre busquei construir uma trajetória própria, com um estilo de atuação que tem a minha cara. Tenho muito orgulho do meu pai, que é minha maior referência, mas acredito que ninguém se mantém na vida pública apenas por um sobrenome. O que sustenta um mandato é trabalho sério, propostas consistentes e entregas concretas para a população.

Thiago Papa- Sem dúvida, o maior ponto positivo é ter uma referência sólida de trabalho, de honestidade e de comprometimento com a coisa pública, com as pessoas. Ter acompanhado de perto como meu pai sempre colocou os interesses da cidade em primeiro lugar me ensinou muito. Além disso, é muito gratificante ver o carinho que ele conquistou ao longo de sus trajetória. Por onde passo, hoje, como secretário, as pessoas compartilham histórias, lembranças e elogios ao trabalho dele. Isso me emociona e reforça a importância de manter esse legado de seriedade, trabalho e dedicação.

E o que tem de negativo? A comparação com o desempenho do pai? A necessidade de provar que tem méritos próprios e não ser apenas “filho de quem é”?
Caio França- A comparação é, sem dúvida, um dos maiores desafios. Apesar de sermos pai e filho, temos perfis diferentes e atuamos em contextos distintos. Mas hoje, aos 37 anos e no meu terceiro mandato, posso dizer com tranquilidade que construí meu próprio caminho. Tenho orgulho da trajetória que venho trilhando, com muito diálogo, escuta ativa nas ruas, participação popular e coragem para propor políticas públicas relevantes. O reconhecimento vem do trabalho e do compromisso diário com as pessoas.

Thiago Papa- Sinceramente, não vejo nada como algo negativo. Muito pelo contrário: tenho muito orgulho de ser filho do João Paulo, que é parte da história de Santos. Ele me inspira todos os dias, e se eu conseguir chegar perto do homem público que ele é, já me sentirei recompensado. Claro que as comparações existem, mas não como um peso — vejo como um estímulo para fazer o meu melhor, com os meus próprios méritos, mas com muito aprendizado do exemplo que trago de casa.