Cena

Leitura se torna espaço de reflexão em clube do livro da OAB Santos

25/05/2026 Gustavo Klein
Divulgação

Em um tempo em que quase tudo é consumido rapidamente e descartado logo depois, a ideia de reunir pessoas para conversar sobre livros já parece, por si só, um gesto de resistência. No clube do livro da comissão de enfrentamento à violência doméstica da OAB Santos, porém, a experiência vai além da leitura coletiva. A cada encontro, os participantes são convidados a levar um livro novo, escolhido com carinho, para trocar com outra pessoa.

A proposta transforma o encontro em algo mais humano do que uma simples discussão literária. Cada participante pensa no livro que deseja apresentar ao outro, quase como quem oferece uma porta de entrada para novas ideias, emoções e descobertas. Não se trata apenas de presentear alguém com um objeto, mas de compartilhar aquilo que uma leitura pode despertar.

Em vez de uma relação individual e silenciosa com os livros, o clube constrói uma experiência coletiva. Pessoas de diferentes trajetórias se encontram para discutir temas sociais, refletir sobre a realidade e criar conexões a partir da literatura. O livro deixa de ser apenas um item de consumo cultural e passa a funcionar como instrumento de aproximação, diálogo e formação crítica.

A dinâmica da troca também cria um movimento interessante de ampliação de repertório. Muitas vezes, o participante recebe um título que talvez nunca escolhesse sozinho em uma livraria. Isso amplia horizontes, desperta curiosidade e incentiva leituras fora da própria zona de conforto.

Em uma sociedade cada vez mais acelerada, marcada pela comunicação superficial e pela dificuldade de escuta, iniciativas assim recuperam algo essencial: a capacidade de parar para pensar junto. O clube do livro nasce justamente dessa necessidade de criar espaços de conversa mais profundos, acolhedores e acessíveis.

Idealizadora do projeto, a presidente da Comissão de Enfrentamento à Violência Doméstica da OAB Santos, Tatiana Riesco, afirma que o clube nasceu da necessidade de criar espaços de debates críticos sobre gênero, direitos humanos e desigualdades sociais. Segundo ela, a literatura permite enxergar aspectos da realidade que muitas vezes não aparecem de forma clara em outros ambientes.

CONSCIÊNCIA
Tatiana entende que a leitura pode ampliar a consciência crítica e aproximar a sociedade de discussões importantes de maneira mais acessível. Para ela, o objetivo do clube não é transformar os encontros em ambientes acadêmicos fechados, mas criar conversas acolhedoras, em que qualquer pessoa se sinta confortável para participar.

A escolha das obras segue justamente essa lógica. Os livros debatidos estimulam reflexões sobre relações humanas, desigualdades históricas e questões sociais ainda presentes. No primeiro encontro, a leitura escolhida foi Tudo Sobre o Amor: Novas Perspectivas, da escritora Bell Hooks. Agora, o grupo se dedica à discussão de O Segundo Sexo, clássico de Simone de Beauvoir publicado em 1949.

Mesmo lançado há mais de sete décadas, o livro continua despertando debates atuais. Tatiana destaca que muitas reflexões da autora francesa ainda ajudam a compreender a construção social dos papéis atribuídos às mulheres, além de questões relacionadas à autonomia feminina, casamento, maternidade e liberdade.

Mas talvez um dos aspectos mais interessantes do projeto esteja justamente fora da mesa principal de debate. A troca de livros proposta aos participantes cria uma espécie de biblioteca afetiva coletiva. Cada pessoa leva para casa não apenas uma nova leitura, mas também um pouco da trajetória de quem escolheu aquele exemplar.

Em uma época marcada pelo consumo rápido de informações, pela lógica do descarte e pelo individualismo crescente, a troca simbólica de livros resgata algo raro: o tempo da escuta. Quem entrega um livro geralmente conta por que aquela obra foi importante. Quem recebe passa a carregar consigo não apenas uma história escrita pelo autor, mas também uma experiência compartilhada.

Existe ainda um aspecto educativo importante nessa dinâmica. Muitas pessoas chegam ao clube sem hábito consolidado de leitura ou sem contato anterior com filosofia, literatura crítica e debates sociais. Ao perceber que alguém comum — um participante sentado ao lado — foi profundamente impactado por determinado livro, a leitura deixa de parecer distante ou inacessível.

EXPRESSÃO DA VIDA
A coordenadora da Escola Superior de Advocacia da OAB Santos, Angela Romiti, vê a literatura como uma forma de expressão da própria vida. Para ela, Direito e literatura dialogam porque ambos partem das experiências humanas, dos conflitos, das relações e das transformações sociais.

Angela também observa que o clube busca despertar o desejo pela leitura mesmo entre aqueles que ainda não tiveram contato frequente com livros. Muitas vezes, segundo ela, pessoas que chegam sem conhecer a obra debatida saem dos encontros curiosas, interessadas e motivadas a começar a leitura.

O rápido encerramento das inscrições mostra que existe demanda por espaços assim. Em meio a discussões públicas frequentemente marcadas pela agressividade, superficialidade e polarização, ambientes de conversa qualificada acabam se tornando raros.

Mais do que formar leitores, iniciativas desse tipo ajudam a formar cidadãos mais atentos à complexidade humana. Ler literatura, filosofia ou ensaios críticos não oferece respostas prontas. Pelo contrário. Frequentemente, provoca desconfortos, dúvidas e questionamentos.

Talvez seja justamente esse o maior valor da proposta. Em vez de estimular discursos fechados, o clube aposta na construção coletiva do pensamento. O participante não precisa chegar ao encontro sabendo tudo sobre a autora, sobre teoria feminista ou sobre história social. Basta disposição para ouvir e refletir.

A decisão de realizar os encontros fora da sede da OAB, na Livraria Realejo, também reforça a intenção de aproximar o debate da cidade. O espaço jurídico deixa de ser visto apenas como ambiente técnico e se abre para experiências culturais e humanas mais amplas.

Há algo de profundamente simbólico no gesto de trocar livros em grupo. Um livro guardado em casa pode permanecer anos fechado em uma estante. Quando circula, ele ganha novas interpretações, novas marcas e novos sentidos. Cada leitor acrescenta uma camada diferente àquela obra.

Em uma sociedade acostumada a falar o tempo todo e ouvir cada vez menos, talvez iniciativas assim tenham importância justamente porque criam pausas. O encontro em torno dos livros desacelera a rotina, exige atenção, convida à empatia e lembra que nenhuma reflexão verdadeira nasce da pressa.