Economia

Jovens da Geração Z: bancos pelo celular e ousadia nos investimentos

23/06/2025 Mariana Nerome
Envato

Quem tem menos de 30 anos de idade é muito provável que nunca tenha usado um talão de cheques. No dia a dia, controla suas finanças pelo celular e foge dos conselhos presenciais de gerentes de investimento. Esta é a Geração Z, que está redefinindo a relação com o dinheiro. Enquanto gerações anteriores ainda desconfiam de pagamentos digitais, os jovens nascidos entre 1997 e 2012 cresceram na era dos bancos na Internet e das carteiras virtuais. Para eles, ir a uma agência bancária é impensável. Números da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) confirmam a tendência: 66% destes jovens têm conta em bancos digitais, contra apenas 4% das gerações mais velhas que até usam os aplicativos, mas preferem bancos físicos.

Entre os jovens, 63% usam APPs para transações financeiras e somente 15% visitam agências. A diferença se estende aos investimentos. Enquanto a poupança domina entre os mais velhos (acima de 60%), entre os jovens ouvidos pela Ambima, somente 16% guarda dinheiro nessa modalidade bancária e pouco mais de 8% buscam conselhos financeiros presenciais.
Para Rafael Barreto, mentor empresarial, os jovens não tem paciência para os investimentos extremamente tradicionais. “Cresceram vendo tudo acontecer em tempo real, então buscam ativos que reflitam essa velocidade”, diz.

RESERVA

A estrategista digital, Natália Molinari, 28 anos, moradora de Mongaguá, conta que sua relação com o dinheiro tem um objetivo bem claro: ter uma reserva de emergência. “Sempre achei importante ter uma segurança para imprevistos. Atualmente, aplico em CDBs (renda fixa)oferecidos no menu do próprio banco. Como ainda não tenho tanto conhecimento sobre investimentos mais complexos, acabo ficando com essa opção por ser mais simples e acessível”.

Já a analista jurídica e comercial, Giovanna Viana, 25 anos, a influência para guardar dinheiro veio da mãe. “Desde pequena, ela já guardava um dinheiro na tradicional poupança”, diz. “Quando cresci, comecei a estudar sobre investimentos, peguei esse valor, diversifiquei os investimentos e este mesmo dinheiro está rendendo até hoje. Não é uma grande quantia, mas é algo”, afirma Giovanna.

Segundo ela, todos os jovens deveriam investir dinheiro de maneira organizada. “Nós não sabemos o dia de amanhã, caso aconteça algo, eu tenho como recorrer financeiramente”.
Giovanna diz que prefere os bancos digitais, que estão crescendo cada vez mais, “É uma tendência que meus pais, avós, com certeza convivem, mas não gostam. Preferem imaginar um ‘cofre físico’, onde está o dinheiro. Na minha opinião, esses bancos facilitam muito o dia a dia das pessoas. Não há mais necessidade de ir a uma agência física, esperar filas quilométricas”, enfatiza.

Há um discurso que diz que os jovens não se preocupam com aquisição de casa própria, preferindo alugar os imóveis. Barreto diz que não é uma questão fechada. “É um pouco dos dois. Muitos não conseguem porque o custo de entrada está alto, sim. Mas também tem uma mudança de mentalidade: liberdade é mais valiosa que estabilidade pra muita gente da Geração Z. Alugar e poder mudar de cidade ou país parece mais inteligente do que amarrar capital em um imóvel”, destaca.

CRIPTOMOEDAS

Para Rafael Barreto, as criptomoedas (que são um universo finaceiro descentralizado), ainda não estão totalmente na mira. “Os mais velhos foram educados pra confiar no que é regulamentado e previsível”. Ele comenta que os jovens enxergam as criptos como uma “corrida do ouro”. Muitos têm medo de ficar de fora e entram nesse mundo por uma questão de FOMO (sigla inglesa que quer dizer “Fear of Missing Out” ou “Medo de ficar de fora”). “Falta clareza. Muitos pulam do barco sem saber nadar. E aí não é investimento, é aposta. E apostar com dinheiro que você não pode perder é a receita perfeita para o caos”, enfatiza.

Além disso, há a questão da superficialidade de alguns influenciadores de redes sociais. “Eles falam a língua dos jovens: direta, informal e em 30 segundos. O consultor financeiro tradicional, muitas vezes, ainda age como se estivesse dando aula nos anos 90. Isso não quer dizer que o influenciador esteja certo — só que ele é mais ouvido”, diz Barreto.

DICA

Danubia Borba, economista, comenta que essa geração cresceu trocando likes. “Agora é hora de multiplicar dinheiro. Liberdade financeira também é sobre ter escolhas, não só seguidores”. Para ela, a Geração Z é empreendedora, autodidata, quer novas maneiras de fazer dinheiro, mesmo que ainda tenham trabalhos formais. “Se eu tivesse que dar uma dica, seria: comece a investir o quanto antes. O tempo e a juventude são os melhores aliados ”.