Esportes

Jorge Fênix leva representatividade e resistência para dentro do octógono

30/05/2026 Matheus Vieira
Fernando Yokota/Jornal da Orla

Lutador irá representar São Vicente no maior evento de MMA para trans do país

É guerra! E a Baixada Santista tem um guerreiro pronto para o combate que acontece neste sábado, na segunda edição do Trans Fighter Championship, maior evento de MMA voltado para atletas trans do Brasil, realizado em São Paulo. Aos 39 anos, Jorge ‘Fênix’ Azevedo lutará no card principal contra Gabriel Sampaio, pela categoria peso leve (até 70,3 kg).

Fênix descreve o seu adversário como ‘imprevisível’, mas garante que está preparado para a luta. “Lá dentro serão dois guerreiros dando o máximo de si para entregar uma grande luta e um grande espetáculo para o público. A preparação para esse evento está sendo muito intensa. Estou focado em todos os detalhes: parte física, técnica e mental. Cada adversário exige uma estratégia diferente, e o meu atual adversário tem um perfil mais imprevisível, o que torna a leitura da luta ainda mais desafiadora”, afirma.

Por outro lado, o representante de São Vicente não tem de enfrentar apenas o adversário externo, mas também os problemas internos. “Além do adversário, também existe uma preparação emocional muito forte. Nós, atletas trans, acabamos entrando no cage carregando pressões que vão muito além do esporte. Por isso, meu preparo também envolve equilíbrio psicológico e manter a mente firme. Nesse processo, tenho um suporte muito importante do Ambulatório Trans de São Vicente, especialmente da Dra. Paloma Paula Mello, psicóloga que vem me ajudando muito nessa caminhada”, ressalta.

Em sua preparação, ele não está sozinho e pôde contar com a sabedoria dos mestres Marcos ‘Lello’ Caetano, de MMA, Marcos ‘Ferruge’ Augusto, de Jiu-Jitsu, e Ronaldo ‘Ron’ Alves, de Capoeira, que destacam a persistência e dedicação do atleta. “Trabalhar com uma pessoa dedicada e esforçada é uma satisfação tamanha, sem dúvidas um dos melhores atletas que já treinei”, relata Lello. “Ele é uma pessoa muito sincera e sempre muito grato, reconhecendo sempre nas pessoas seus devidos valores”, destaca Ron. “Falar como técnico dele é um pouco complicado. Ele é um atleta completo e dedicado em todos os aspectos necessários para o MMA. Não existe dificuldade para quem tem dedicação”, completa Ferruge.

Representatividade

Contrariando as estatísticas, Jorge segue firme na caminhada de um homem negro, periférico, trans masculino e pai atípico, e chega ao octógono com uma bagagem que vai além da luta esportiva. É uma luta pelo direito de viver.

“Hoje, estar dentro do cage representa muito mais do que uma luta para mim. Representa resistência, representatividade e a possibilidade de abrir portas para que outras pessoas trans também possam ocupar esses espaços sem medo. Cada vez que entro para lutar, levo comigo minha história, minhas vivências e todas as pessoas que nunca tiveram a oportunidade de se sentir pertencentes dentro do esporte”.

Jorge nunca lutou contra homens cis em competições, mas isso não é encarado como um problema pelo atleta. Afinal, o objetivo dele não é provar que pode ocupar esse espaço, mas sim mostrar que o esporte é um lugar para todos.

“Nunca quis ocupar um espaço para provar que sou melhor do que alguém por ser trans. Quero mostrar que pessoas trans também podem estar no esporte com dedicação, disciplina e profissionalismo. Treino constantemente com homens cis, e isso faz parte da minha evolução como atleta. Dentro do esporte existem diferenças físicas individuais entre atletas, independentemente de serem cis ou trans. Por isso, cada treino e cada luta acabam sendo experiências únicas. O que eu acredito é que o esporte precisa ser tratado com responsabilidade, estudo e respeito”, afirma.

E, para isso, aprendeu a transformar a torcida contrária em motivação para continuar brigando por esse espaço enquanto cidadão. Superando comentários absurdos e preconceituosos nas derrotas e mostrando que todos têm o direito de competir e sonhar.

“Toda vez que entro no cage, eu sei que estou representando muita gente que nunca se sentiu pertencente nesses ambientes. Então, independentemente do resultado, só de estar ali, lutando e resistindo, eu já estou abrindo caminho”, finaliza.

 

Fotos: Fernando Yokota/Jornal da Orla