Esportes

Irmãos fabricam pranchas campeãs de surfe em Santos há mais de 30 anos

06/12/2025 Matheus Vieira
Fernando Yokota/Jornal da Orla

Tico e Teco são os criadores dos equipamentos utilizados pelo Campeão Mundial Ítalo Ferreira

Para ser um atleta de alto nível, não basta apenas o talento e dedicação, mas também acesso aos equipamentos ideais para exercer o esporte com a melhor qualidade possível. No futebol, as melhores chuteiras, a bola perfeita; no automobilismo, o carro pensado milimetricamente, de acordo com o gosto do piloto e com as melhores tecnologias; no surfe, a prancha perfeita para cada situação com os ajustes especiais para cada surfista.

Quem vê Ítalo Ferreira, campeão olímpico e mundial de surfe, dominando as ondas do mundo inteiro, não imagina que o seu principal instrumento de trabalho sai daqui de Santos. Desde os 14 anos, o atleta tem suas pranchas feitas pelas mãos dos irmãos Sylvio “Tico” Oliveira e Adriano “Teco” Oliveira, shapers e fundadores da Silver Surf.

“Na época, o manager dele chegou para a gente com um projeto de um menino promissor, do Rio Grande do Norte, que precisava de pranchas. É um nome que já descobriu vários talentos pelo Brasil. Nós topamos a proposta”, conta Tico. “Nas primeiras pranchas tínhamos pouca informação sobre ele, nós construímos essa relação de confiança aos poucos, conforme os feedbacks dele”, completa.

Em uma comparação poética, pode-se dizer que os moldadores das pranchas são como os mecânicos dos carros de Fórmula 1. Eles escutam as preferências do piloto, no caso, surfista, e adaptam o carro, ou prancha, ao atleta. Tico explica que trabalha com pranchas personalizadas, que se adaptam ao usuário e ao local. “Além das adaptações físicas que podemos fazer de acordo com o corpo do Ítalo, por exemplo, é preciso entender o local da competição, os tipos de onda, onde a onda quebra. Na maioria das vezes, a mesma prancha atende a várias situações. Um exemplo: em El Salvador, ele pode usar a mesma prancha que usaria no Rio de Janeiro, mesmo que sejam ondas diferentes. Mas algumas situações precisam de pranchas diferentes, como as ondas no Havaí e no Taiti”, diz.

O profissional ainda destaca que cada atleta tem suas preferências e diferenças físicas. Um pé maior, ser mais pesado e altura fazem toda a diferença no momento da criação. “Nós ajustamos de acordo com o feedback dele. A largura da rabeta, o peso, às vezes uma prancha um pouco mais estreita para garantir mais velocidade ou um pouco mais larga para dar mais controle, assim vamos sempre buscando a maneira de atender as demandas que ele nos traz”, completa.

Ítalo Ferreira com uma prancha produzida pelos irmãos Tico e Teco em uma rodada do WSL. Créditos: Damien Poullenot/World Surf League

Ohana = Família

A Silver Surf é mais um dos vários negócios familiares da cidade. Formada e fundada por dois irmãos apaixonados por surfe, em 1994, ela não teria chegado ao patamar que chegou se não fosse o apoio da avó dos garotos. “Começamos a mexer com prancha na adolescência, nós surfávamos, mas não tínhamos dinheiro para fazer os reparos das pranchas, então tivemos que aprender. Fazíamos para nós e para amigos, montamos uma oficina num quartinho do apartamento em que a gente morava. Só que o cheiro da resina e a poeira começaram a incomodar os vizinhos, então nos mudamos para o apartamento da minha avó”, relembra Tico.

No apartamento da avó, o problema se repetiu: os vizinhos se incomodavam com o cheiro. Chegou a hora de sair de casa. “Minha avó começou a procurar lugares com a gente. Até que ela encontrou um terreno, ali na Carvalho de Mendonça, que tinha um espaço no fundo desocupado e ela, na cara de pau, bateu na porta e perguntou se o dono não alugaria para nós. Foi nossa primeira fábrica. Dali, passamos para a Joaquim Távora e, quando veio a necessidade de aumentar de novo, viemos aqui para a Luiza Macuco”, conta.

A primeira prancha completa da dupla também saiu de dentro da casa da avó. Tico conta que, após ficarem especialistas no remendo, passaram a envelopar as pranchas por completo até sentirem que estavam prontos para fazer a primeira 100% Silver Surf. Desde então, são mais de 30 anos de fabricação de pranchas personalizadas para todos os níveis de surfistas, do iniciante ao profissional de alto nível.

“E trabalhar com meu irmão é muito legal, é uma das melhores partes. Tem suas dificuldades, claro, relacionamentos têm atritos. Mas eu acredito que o amor que existe entre mim e ele faz com que resolvamos esses problemas com mais facilidade. É um privilégio”, descreve Tico.

Sylvio “Tico” Oliveira, toca a Silver Surf junto do seu irmão há mais de 30 anos. Crédito: Fernando Yokota/Jornal da Orla