Metrópole

Fortes guardam histórias de disputas entre colonizadores

11/07/2026 Marcos A. Ferreira
Fernando Yokota

Quando os portugueses chegaram a “esta Ilha de Vera Cruz” – como escreveu Pero Vaz de Caminha a El Rei D. Manuel, Dominus, “no primeiro dia de maio de 1500” – representavam uma potência marítima, mas não a única a se lançar ao mar em busca de novas fontes de riquezas. Espanha, Holanda, Inglaterra e França, além de piratas e corsários, também cruzavam o Atlântico em busca de ouro, prata, especiarias e também na disputa no comércio de gente – africanos e africanas, força motriz da engrenagem político-econômica.

Surgiram as primeiras fortificações, fundamentais para consolidar o projeto colonial português. “Colonização pressupõe ocupação e proteção do território. Então, ao construir os fortes, os portugueses mostravam que esse território tinha dono, estava sendo ocupado”, afirma Gabriel Pierin, professor de História.

De acordo com Elcio Rogério Secomandi, estudioso da arquitetura militar, coronel reformado do Exército, economista e professor aposentado, a primeira fortificação construída foi a de São João, em Bertioga. “Foi erguida em 1532, de forma rudimentar, na embocadura do Canal de Bertioga, recebeu no lado oposto, o Forte São Felipe (1557), substituído pelo Forte São Luiz (1770). O objetivo era impedir ataques indígenas à Capitania de São Vicente”.

Forte São João, em Bertioga, umas das primeiras fortificações.

Forte São João, em Bertioga, umas das primeiras fortificações.

Forte São João, em Bertioga, umas das primeiras fortificações.

Forte São João, em Bertioga.

Secomandi destaca a geografia da região como fator estratégico, com as ilhas de Santo Amaro (onde hoje está Guarujá) e a de São Vicente (dividida com Santos) como uma espécie de proteção natural. “Atrás, começa o continente. A ilha de São Vicente é protegida pela de Santo Amaro e tem o canal de Bertioga que vem até o Porto. Eram as duas maneiras de você chegar à Vila de Santos. Como os franceses ocuparam o Rio durante 12 anos, Portugal precisava defender”.

Gabriel Pierin reforça essa tese. “Os tupinambás eram aliados dos franceses, que por sua vez eram inimigos dos portugueses. Os portugueses eram aliados dos tupiniquins, inimigos dos tupinambás. Na entrada do canal de Bertioga, havia uma disputa muito grande pelo território”, afirma.

O professor Secomandi explica que o litoral brasileiro é pouco recortado e o pouco que há são baías grandes, como as do Rio de Janeiro, Salvador e na Foz do Amazonas. Mas diz que a baía de Santos e São Vicente eram as mais protegida. Ele lembra que o primeiro porto foi em frente ao local onde está hoje o Museu de Pesca, na Ponta da Praia – há ali um marco de posse da terra, que é o mesmo que existe em Sagres, Portugal. “Braz Cubas resolveu mudar para um lugar mais protegido, para dentro do estuário, no povoado de Enguaguaçu, região do Outeiro de Santa Catarina, onde fundou a Vila de Santos (1545/46). Onde está a Alfândega, no Centro de Santos, existiu o Forte de São Luís. Era muito pequeno”.

UNIÃO IBÉRICA
Além do Forte de São João (Bertioga) e do Forte Vera Cruz de Itapema (1580 – Guarujá), a fortificação mais visível e conhecida na região é a da Barra Grande, avistada na ponta da Ilha de Santo Amaro (Guarujá), na entrada do canal do Porto de Santos. Trata-se de uma construção de 1584, em um contexto bastante interessante e agitado.

“A gente chama de Interregno, quando há a União Ibérica. Portugal não tinha herdeiro para assumir o trono e o rei Felipe da Espanha reivindicou o trono para si, pelo grau de parentesco, e assume o trono português. A unificação trouxe problemas para as antigas colônias portuguesas, porque a Espanha era o grande império marítimo e tinha muitos inimigos. A região começa a ser assediada violentamente, inclusive por piratas e corsários”, explica Gabriel Pierin.

Elcio Secomandi afirma que, inclusive, a Fortaleza da Barra foi construída a partir de um combate entre esquadras espanhola e inglesa. O período de unificação ocorreu entre 1580 e 1640, quando Portugal retomou a coroa.

OUTROS FORTES
As fortificações coloniais perderam a batalha para o abandono. O São João e a Fortaleza da Barra ´retomara a vida` como pontos turísticos. O Forte de Itapema tem projeto de restauração. Mas há as construções militares do século XX: o Forte de Itaipu (1902), em Praia Grande, e o Forte dos Andradas (1942), em Guarujá. Para manter viva a história das fortificações, o professor Secomandi mantém um site: https://www.secomandi.com.br/#links