Cena

Fescete celebra 30 anos de teatro, talento e resistência em Santos

11/06/2026 Isabela Marangoni
Noelia Najera

O teatro que ocupa ruas, provoca reflexões e floresce mesmo diante dos obstáculos é o protagonista da 30ª edição do Festival de Cenas Teatrais (FESCETE). Com o tema Uma Flor Nasceu No Palco – Cartografias Do Afeto No Território Teatral, inspirado em versos de Carlos Drummond de Andrade, o festival celebra três décadas de trajetória reafirmando o teatro como uma força viva de transformação artística, cultural e social em Santos.

Segundo o diretor de programação do FESCETE, Pedro Marcelo Marinho, o conceito desta edição nasceu da potência simbólica da imagem criada pelo poeta. “O tema vem dos versos de Drummond. E, enquanto a flor drummondiana choca o poeta porque abre novos caminhos em meio ao trânsito, a nossa flor provoca e convida à reflexão sobre a sociedade. É o que o teatro gera: algo que nasce apesar dos obstáculos, como uma força inevitável da natureza, impregnada de sensibilidade e boniteza”, afirma.

Construção coletiva
Ao revisitar a história do festival, o diretor Pedro Norato destaca o caráter coletivo que permitiu ao FESCETE crescer e se consolidar ao longo de três décadas. “Quando criamos o FESCETE, não imaginávamos que ele se transformaria nesta árvore de muitas raízes — um mapa afetivo que se desenha ano após ano, costurando Santos de ponta a ponta com a energia viva da cena teatral. Hoje, ao olharmos para trás, vemos não uma linha reta, mas um emaranhado de caminhos possíveis: ruas ocupadas, espaços culturais ativados e palcos que receberam centenas de trabalhos e artistas”.

Para Norato, a homenagem à Companhia Mungunzá dialoga diretamente com a essência do festival. “Há algo de profundamente simbólico em celebrarmos a trajetória da Mungunzá. Eles nos lembram que o teatro também é uma forma de construir cidade, gerar pertencimento e promover impacto urbano e social”.

Ele também destaca os laços históricos entre a companhia e artistas da Baixada Santista. “O diretor santista Nelson Baskerville, homenageado pelo FESCETE há 13 anos, já dirigiu a companhia. A Verônica Gentilin dirigiu espetáculo do Grupo Tescom, e artistas da Mungunzá também trabalharam com coletivos de Cubatão e mediaram equipamentos para grupos da região. Existe um intercâmbio muito forte com as novas gerações de artistas locais”.

Outras linguagens
Entre as novidades da programação está a intervenção artística Galeria Humana – Corpos-cartografia, proposta que aproxima o teatro de outras expressões artísticas e amplia as possibilidades de diálogo com o público. “Cada vez mais pensamos o teatro em conexão com outras modalidades artísticas. Daí surge a ideia dessa galeria humana, uma intervenção em que jovens artistas expressam reflexões, desejos e sonhos por meio de um manifesto vestível”, explica Marinho.

Ao longo dos anos, o FESCETE também se consolidou como um espaço de formação artística e afetiva. “São crianças que sobem pela primeira vez a um palco público, professores que um dia aprenderam teatro conosco, familiares, voluntários e parceiros que ajudam a construir o festival. Tudo isso faz parte dessa história”, ressalta Norato.

Ele destaca ainda a capacidade do evento de reunir diferentes linguagens culturais. “São milhares de espectadores e centenas de artistas que se encontram no festival por meio da música, da literatura, das artes plásticas e, claro, do teatro. É uma tradição que nos permite refletir sobre a importância da arte para a cidade e para as novas gerações”.

Entre os destaques simbólicos da programação comemorativa estão a exposição 30x Teatro, com curadoria de Márcia Okida, o espetáculo A Arte Está por um Fio, do Grupo Tescom em Cena, Taumatrópilo, do pernambucano Teatro de Retalhos, e a mostra de teatro lambe-lambe na Pinacoteca Benedicto Calixto.

Próximos dias
Considerado o festival mais antigo do gênero no país, o FESCETE reúne centenas de artistas de São Paulo, Pernambuco e Rio de Janeiro em uma programação gratuita distribuída por teatros, praças e espaços culturais de Santos, da Zona Noroeste à Ponta da Praia, entre os dias 10 e 28 de junho.

Nesta quinta-feira (11), às 20h30, a Tescom (Avenida Rodrigues Alves, 195) recebe a abertura de processo de Bate, nova montagem do Grupo Tescom inspirada livremente em Casa de Bonecas. O espetáculo aborda a violência contra a mulher e será seguido por uma roda de conversa sobre políticas públicas com a secretária municipal da Mulher, Cidadania, Diversidade e Direitos Humanos, Nina Barbosa.

A programação também inclui a mostra de cenas da categoria mirim, no Teatro Guarany, a oficina artística Lumiar Brincante, voltada para crianças e adolescentes, além da performance Galeria Humana – Corpo-cartografia e da abertura de processo de A Arte Está por um Fio, na Praça Ida Trilli, na Ponta da Praia.

FESCETE Solidário
Mantendo sua tradição solidária, o festival arrecada alimentos enlatados para famílias atendidas pelo Gapa/BS – Grupo de Apoio à Prevenção da Aids da Baixada Santista – e novelos de lã destinados à confecção de mantas infantis do projeto voluntário Quadradinhos de Amor.

As doações podem ser entregues durante a programação realizada no Teatro Guarany e na Tescom. Mais informações no site do festival.