
A imagem em movimento, representada pela “Sétima Arte”, em suas múltiplas versões, nos propicia viagens no tempo, e a internet talvez seja uma das mídias mais democráticas da atualidade, se bem que isso depende da intencionalidade de quem produz e disponibiliza materiais nela.
Recentemente, vi um vídeo que contava o escândalo causado pela primeira apresentação de “Sagração da Primavera”, obra-prima de Ígor Stravinski, na Paris de 1913.
Eu conhecia essa obra desde a infância, graças a Walt Disney.
Havia uma série de TV que apresentava fragmentos de filmes clássicos desse gênio, incluindo cenas de bastidores das produções.
Foi num desses vídeos que conheci aspectos do filme de animação “Fantasia”, de 1940.
Nele, uma bailarina posava para os desenhistas do estúdio, quando estranhou que eles riam entre si. Ela foi ao encontro deles para ver o que desenhavam e viu uma enorme hipopótama que reproduzia seus gestos. No filme, o balé de hipopótamas e crocodilos é ao som de “A Dança das Horas”, de Amilcare Ponchielli. Cada novo tema tinha outra música associada. Aliás, as músicas tinham sido a inspiração para as cenas.
O mais impressionante foi ver um tanque de lama em que injetavam ar para fazer bolhas, que os desenhistas reproduziam em detalhes, para que os 24 quadros por segundo expressassem fielmente os movimentos.
Só fui conhecer integralmente a maioria dos clássicos da Disney já adulto, no cinema ou alugando fitas VHS. Mas o primeiro que vi, na pré-adolescência, pelas mãos de meu pai, que era projecionista de cinema, foi justamente “Fantasia”!
Nele, as imagens das bolhas no tanque de lama compuseram um cenário pré-histórico, com dinossauros rodeados por lava borbulhante. A calma dos herbívoros, a violência de T-Rex e o caos da extinção ocorrem ao som da “Sagração da Primavera”. Foi assustadoramente maravilhoso, espetacular!
A “escandalosa” música de Stravinsky se enquadrava perfeitamente, dramaticamente, nas cenas. Creio que foi ao ver “Fantasia” que comecei a me apaixonar pela música clássica.
Quando Disney faleceu, em 1966, eu tinha 6 anos. As poucas emissoras de TV de então fizeram longas matérias sobre ele. Uma delas repetia uma música que ficou marcada em minha memória: “Papai Walt Disney, não me abandones. O teu talento é uma mensagem de esperança”. Ela resumia muitos dos filmes e personagens criados por ele e aumentava a sensação de tristeza.
Disney já havia elevado os filmes de animação ao status de arte com seu “Branca de Neve” (1937), sempre associando a perfeição de movimentos à música. Mas “Fantasia”, em minha opinião, é sua obra-prima, insuperável, a começar pela abertura, em que um Mickey aprendiz de feiticeiro, seu personagem menos caricato, cumprimenta o regente, Leopold Stokowski, apenas em silhuetas.
A partir daí, o filme fez total jus ao título!


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