Economia

Falha da AWS expõe fragilidades na infraestrutura digital das empresas

11/11/2025 Mariana Nerome
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A tecnologia em nuvem transformou a forma como as empresas operam. O que antes exigia servidores físicos, equipes de manutenção e investimentos pesados em infraestrutura agora cabe em plataformas remotas acessíveis com poucos cliques. Mas recentemente, o mercado trouxe um lembrete: quando a nuvem falha, o impacto atinge todos que dependem dela. O apagão da Amazon Web Services (AWS), no final do mês passado, atingiu mais de 500 empresas de diversos setores. PicPay, Mercado Livre, iFood, Duolingo e Zoom enfrentaram interrupções em seus serviços.

Um erro no sistema interno impediu que milhares de aplicações encontrassem os endereços de seus recursos na nuvem. Snapchat, Signal, Fortnite, a assistente Alexa e o sistema de câmeras da Ring também sofreram impactos. Bancos e agências governamentais registraram problemas.

A Baixada ainda não sofreu nenhum tipo de ataque ou falha nos dados armazenados em nuvens. A especialista em Segurança da Informação da IAM Brasil, Nathália Carmo, afirma que quando muitos clientes dependem de uma mesma zona ou recurso, uma falha se propaga amplamente.

“Para mim, o incidente é mais um alerta que empresas que depositam sua operação quase que inteiramente na nuvem de um único provedor ficam expostas quando o mesmo enfrenta problemas técnicos severos. Essa falha reacende também a necessidade de redundância, diversificação de nuvem e arquitetura preparada para falhas”, afirma Nathália.

Segundo ela, a responsabilidade de habilitar controles, monitorar os ambientes de nuvem e fazer a segurança pertence aos clientes, que devem habilitar e estruturar os controles, fazer as configurações e garantir que tudo está funcionando de forma adequada.

DESAFIOS TÉCNICOS

O incidente expôs cinco desafios técnicos. O primeiro envolve dependência de automações em larga escala sem mecanismos robustos de validação. O segundo diz respeito a pontos únicos de falha em infraestruturas compartilhadas.

Outro problema foi o das falhas no balanceamento de carga e no escalonamento dinâmico que atrasaram a recuperação.

“Visibilidade e monitoramento insuficientes para detectar rapidamente a propagação de falhas internas também foi outro desafio. Segundo relatório de monitoramento externo, a primeira indicação da falha foi perda de pacotes no último salto antes da infraestrutura AWS. Isso sugere que mecanismos de detecção ainda têm atraso ou não cobrem todos os níveis necessários”, explica a especialista.

Por fim, ela aponta a complexidade de dependências entre serviços e camadas de nuvem. “A falha começou num componente interno (DNS) mas impactou ecossistemas de serviços que dependem uns dos outros: bancos, sistemas de autenticação etc. Essa interdependência dificulta isolamento de falhas e recuperação rápida”, ressaltou Nathália.

CENÁRIO NACIONAL

O relatório Cisco Cybersecurity Readiness Index 2025 indica que muitas empresas brasileiras mantêm baixo nível de prontidão para segurança em nuvem. O ranking International Telecommunication Union (ITU) mostra que o Brasil melhorou as posições recentemente, mas permanece abaixo da média global em alguns indicadores de segurança digital.

De acordo com a especialista, algumas particularidades locais aumentam essa vulnerabilidade. “Grande número de empresas de pequeno e médio porte, muitas vezes com recursos limitados para arquitetura robusta de nuvem, automação e equipe especializada”, detalha.

Outro exemplo é a diferença na maturidade entre grandes grupos e empresas menores persiste, gestão de custos e foco em rapidez de entrega que priorizam operações ágeis em vez de resiliência. A carga regulatória cresce ano a ano (LGPD, exigências de auditoria), e nem sempre as empresas adaptam tecnologias e processos ao ritmo dessas exigências.

“Portanto, as empresas brasileiras estão caminhando, mas ainda não necessariamente em pé de igualdade com as melhores práticas globais em ambientes de nuvem, principalmente em automação, monitoramento e arquitetura resiliente. As particularidades locais — recurso limitado, escala menor, diversidade de maturidade — somam-se a riscos específicos”, finaliza Nathália.