Cena

‘Eu, meu avô e os bois’ é arte imersiva com realidade virtual no MISS

18/02/2026 Isabela Marangoni
Divulgação

A instalação ‘Eu, meu avô e os bois’, do artista Marcus Vinicius Vasconcelos, parte de um território íntimo para alcançar uma reflexão coletiva sobre masculinidade, violência e saúde mental. Em cartaz no Museu da Imagem e do Som de Santos (MISS) entre 21 de fevereiro e 6 de março, a obra propõe uma experiência imersiva que combina espaço expositivo físico e realidade virtual interativa, convidando o público a atravessar memórias, traumas e subjetividades do autor.

Desenvolvida durante o mestrado RE: Anima – European Joint Master in Animation, a instalação investiga o que o artista define como um “jogo de transferências ao mesmo tempo psicanalítico e tecnológico”. Com trajetória consolidada na animação para cinema, Marcus parte da autoficção para revisitar a própria história. “Trabalho com animação há muito tempo e parte do meu processo é transformar experiências pessoais em ficção”, explica.

Realidade virtual
A ideia ganhou forma em 2022, quando Marcus se candidatou ao mestrado na Europa, que oferecia a possibilidade de trabalhar com realidade virtual — formato até então inédito em sua produção. “Não fazia sentido fazer mais um curta-metragem. Então propus um autodocumentário em primeira pessoa, em realidade virtual, sobre as memórias com o meu avô”.

A narrativa acompanha a relação entre um adulto e suas lembranças de infância ao lado do avô bipolar, transformando fluxos de pensamento e marcas emocionais em um ambiente compartilhado com o público.

Inicialmente resistente ao suporte, o artista encontrou na tecnologia uma chave conceitual potente. “Era como se fosse a minha própria consciência. A realidade virtual me dá a possibilidade de transferir a minha cabeça para a cabeça de outra pessoa”.

Ao contrário de experiências de VR que apostam no hiper-realismo, a obra assume uma estética de ilustração marcante, com imagens bidimensionais. O ambiente físico, revestido por azulejos que dialogam com o universo virtual, cria um espaço enclausurado onde memórias são revividas.

Masculinidade
Criado em uma casa de forte presença feminina — mãe solo, avó e tias —, Marcus cresceu ao lado do avô, figura central da obra. “Os homens da casa eram duas figuras frágeis: meu avô, que era doente, e eu, que era uma criança. Mas existia a expectativa de preservar o modelo patriarcal”.

Ex-fazendeiro, o avô carregava a imagem do masculino clássico, viril e forte, mas vivia sob medicação e crises psicóticas recorrentes. “Eu cresci com essa figura que parecia prestes a estourar. Quando pequeno, eu só tinha medo. Fui entender isso muito depois”.

Embora relatos familiares mencionem episódios de violência, o artista não guarda lembranças diretas de agressões. O que permaneceu foi o medo latente — e a inquietação diante da falência daquele modelo de patriarca. “No fim, a obra virou uma pergunta: por que essa imagem patriarcal — ou a falência dela — me assombrava tanto?”

A investigação sobre o avô se desdobra em uma questão social mais ampla: que masculino é esse que a sociedade construiu — e quais impactos ele produz? “Nunca me reconheci num lugar tradicional de masculino. Isso sempre me causou sofrimento”.

Hoje pai de um menino, ele admite as próprias incertezas. “Vivemos uma sociedade extremamente violenta. E essa violência tem relação com uma ideia de masculino — seja na violência familiar, contra a mulher ou na homofobia”. Para ele, a dificuldade dos homens em falar sobre sentimentos está no centro da questão. “O homem aprende a reprimir. Quando explode, explode em violência — contra os outros ou contra si mesmo”.

Espelhamento
A obra utiliza a rotoscopia — técnica em que se desenha sobre imagens filmadas. Marcus gravou o próprio corpo executando movimentos e, sobre essas imagens, desenhou tanto a si mesmo criança quanto o corpo do avô. “Era um trabalho sobre mim e sobre ele. Então desenhava os dois corpos sobre o meu próprio corpo. Existe esse lugar de espelhamento”.

Todos os frames foram pintados em aquarela, em um processo que ele define como obsessivo. “A animação é um trabalho obsessivo. Comecei a pensar essa obsessão em relação à masculinidade e à saúde mental, nessa chave da violência e da autoviolência”.

Pela primeira vez, iniciou um projeto sem roteiro prévio. “Eu ia desenhando e pensando na relação com meu avô, comigo mesmo. Um frame depois do outro”.

Simbolismo
O título carrega uma camada simbólica central. “É uma reflexão sobre mim, sobre meu avô e sobre esse imaginário da fazenda, especialmente a figura do boi”.

Para o artista, o animal representa uma masculinidade silenciosa, aparentemente pacata, mas carregada de força e iminência de violência. “Sempre tive muito medo de boi. Se pensarmos no touro, no minotauro, nas representações do Picasso, o boi aparece muito ligado ao masculino”. O boi, assim, torna-se metáfora do medo — e do questionamento sobre qual masculino se deseja sustentar.

Oficinas gratuitas
Além da exposição, Marcus ministra ainda duas oficinas gratuitas nos dias 24 de fevereiro e 3 de março, ambas das 14h30 às 17h30. O encontro apresenta aspectos teóricos e práticos do uso da rotoscopia na produção de conteúdo em realidade virtual.

Na primeira parte, o artista detalha o processo criativo de ‘Eu, meu avô e os bois’. Em seguida, os participantes vivenciam experiências em realidade virtual (VR) e realizam exercícios práticos de rotoscopia. São oferecidas 10 vagas por data e a inscrições podem ser feitas pelo site.