
O escritor e pesquisador Evandro Cruz Silva é um dos finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura 2025, que reconhece os melhores romances escritos em língua portuguesa e publicados no Brasil. Com o livro O embranquecimento, da Editora Patuá, o autor representa a Baixada Santista na categoria Melhor Romance de Estreia de 2024.
Evandro celebra o feito com a serenidade de quem já percorreu os bastidores da literatura em diversas frentes — como autor, jurado e leitor atento. Os vencedores serão anunciados no dia 24 de novembro, em cerimônia na Biblioteca Parque Villa-Lobos, em São Paulo.
Nesta edição, 323 obras foram inscritas — 158 na categoria Melhor Romance do Ano e 165 em Melhor Romance de Estreia. “Já ganhei um prêmio de ensaio, perdi uns trezentos e fui jurado de outros”, brinca Evandro. “Acho que tenho uma visão completa do quão imprevisível é entrar — ou sair — dessas listas”.
A notícia da indicação veio de forma inesperada. “Acordei cedo, peguei o celular e vi que o Walter Porto já tinha publicado os finalistas. Fui conferir e, por sorte, dessa vez acordei com uma boa notícia”.
O romance
Evandro define O embranquecimento como uma obra “nascida da necessidade”. “Eu estava desempregado, entre um trabalho e outro, e tinha escrito apenas uma cena — um sonho, que acabou abrindo o livro. Mostrei ao meu editor, que sugeriu inscrever o projeto no ProAC. Fiz isso sem esperança nenhuma, porque normalmente o ProAC é para finalização de obras, e eu só tinha uma cena. Mas consegui. Ganhei o que eu não esperava: o prêmio — e a obrigação de escrever um romance do zero”, conta.
O resultado é uma narrativa que atravessa gerações e identidades, construída com rigor e sensibilidade. “Passei o ano de 2023 inteiro escrevendo, e o livro saiu em 2024. Foi um milagre de organização — e de necessidade”.
O título curto reforça o estilo direto e conciso do autor. “Gosto de títulos curtos. Acho que é trauma da vida acadêmica, onde tudo tem nome enorme. E também porque o título, para mim, é parte da obra — não é para explicá-la, é para ser respondido por ela”.

A protagonista
O ponto de partida do romance foi a criação de uma personagem feminina. “Eu vinha de um livro de contos em que não havia nenhuma mulher relevante. Quando percebi isso, quis corrigir. Criei uma mulher acadêmica, complexa, com contradições e densidade”.
Para evitar estereótipos, Evandro recorreu à escuta. “Meu único objetivo era que minhas amigas não detestassem o livro”, brinca. “Sabia que elas iam ler, então entrevistei várias, especialmente acadêmicas, para entender experiências femininas de diferentes fases da vida — adolescência, o primeiro encontro, o momento de sair de casa. Quis captar como certos sentimentos e pressões são diferentes para as mulheres”.
O processo virou uma espécie de “pesquisa de campo íntima”. “Foi bonito ver como as pessoas foram generosas. Muitas estão acostumadas a entrevistar, mas não a serem entrevistadas. Teve algo quase terapêutico nisso”.
Além da escuta, o autor mergulhou em referências históricas e artísticas. A protagonista é pesquisadora de História da Arte e tem uma relação simbólica com o quadro A Redenção de Cam, do artista espanhol Modesto Brocos. “Esse quadro conta a história do livro. É o retrato do projeto de embranquecimento do Brasil, mas também o retrato real de muitas famílias brasileiras. Há algo ali que é tanto finito quanto assustador: a convivência afetiva entre pessoas racialmente distintas. Quando percebi isso, vi que o quadro podia contar o romance sem precisar explicá-lo. O livro é uma espécie de quadro ao contrário”.
Gesto artístico
Evandro não busca oferecer respostas fáceis. “Espero que a leitora fique confusa — antes de tudo. A arte não é planilha de Excel. Ela existe para tirar a gente do ponto comum”, defende. “Não é um livro didático, não vai ensinar nada a ninguém. Quero que cause um pequeno abalo, que gere reflexão”.
Mais do que provocar, o autor quer acolher quem se reconhece na trajetória da personagem. “Quero que pessoas que viveram histórias parecidas sintam uma certa companhia, mas também liberdade para pensar coisas confusas. Às vezes, a gente sequestra essa liberdade das pessoas negras, esperando que elas sejam sempre o parâmetro moral. Eu quis o contrário: uma personagem imperfeita, humana”.
Visibilidade
Publicar por uma editora independente é, para Evandro, um gesto político. “O livro saiu pela Editora Patuá, com quem mantenho uma parceria próxima. Essas listas ajudam muito na visibilidade. Publicar por uma editora independente é acreditar na força do conteúdo, não no marketing. Quando o livro entra num prêmio, ele ganha pernas maiores”.
Ele reconhece que a vitória seria simbólica, mas valoriza o reconhecimento coletivo. “Seria ótimo ganhar, claro. Mas o mais importante é o reconhecimento de todo o grupo — meu, dos editores, de quem faz o livro existir. Para muita gente, só comprar um livro de uma editora independente já é uma descoberta”.
O embranquecimento está disponível no site da Editora Patuá e na Realejo Livros, em Santos. O autor também participará da 17ª edição da Tarrafa Literária, no dia 25 de outubro, às 14 horas, na mesa “Os da Minha Praia”, com conversa e venda de exemplares.


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