Cena

‘Emanuelle’: a ditadura no Brasil vista pelas lentes do erotismo

18/11/2025 Isabela Marangoni
Divulgação

Em mais uma investigação sobre os paradoxos culturais e morais da ditadura militar, o escritor Gonçalo Junior lança Entre o prazer, o pecado e a moral – Sylvia Kristel vem ao Brasil libertar Emmanuelle. O livro se passa na década de 1980, quando, após seis anos de proibição, o filme “pornô-chic” Emmanuelle finalmente chegou aos cinemas brasileiros. Nesse período, sua protagonista, a atriz neerlandesa Sylvia Kristel, se tornou um ícone internacional do erotismo, despertando a imaginação dos brasileiros. Apesar da censura sistemática de seus filmes, seu nome dominava colunas sociais, reportagens e entrevistas.

Menos conhecida é a história de sua visita ao Brasil em outubro de 1977, quando veio divulgar um de seus filmes, igualmente mutilado pela censura. Aproveitando a estadia, foi a Brasília tentar convencer pessoalmente os congressistas a liberar Emmanuelle. O que encontrou, segundo Gonçalo, foi uma cena insólita e reveladora dos paradoxos do regime: políticos conservadores a demonizavam como “prostituta” enquanto, nos bastidores, se encantavam com sua presença.

O livro expõe a obsessão da ditadura militar pela repressão ao sexo no cinema, um dos muitos rostos de seus 21 anos de censura e moralismo autoritário. Além de política, mergulha na histeria coletiva em torno da pornografia e do erotismo nos anos 1970. “A censura achava que o erotismo desestruturava a família e, com isso, abria caminho para o comunismo,” lembra Gonçalo. “Enquanto isso, os poderosos assistiam aos filmes censurados em sessões privadas”.

Para reconstruir esse período, o autor vasculhou arquivos por décadas. “A pesquisa durou anos. Juntei revistas, jornais, fotos, entrevistas… até que chega o momento em que digo: é agora,” conta. Consultou publicações como Status, Playboy, Contigo e Ele & Ela, além de colunas sociais de Ibrahim Sued e Zózimo Barrozo do Amaral, que “funcionavam quase como resistência à censura”.

O livro revela ainda curiosidades sobre a passagem de Sylvia pelo Brasil: hospedada no Maksoud Plaza, participou da novela Espelho Mágico interpretando a si mesma e concedeu entrevistas que movimentaram São Paulo e o Rio de Janeiro. Apesar de toda a repercussão, Emmanuelle continuou proibido por mais três anos.

Mais do que resgatar uma história curiosa, ‘Entre o prazer, o pecado e a moral’ é um retrato contundente da censura e da hipocrisia sexual no Brasil. “A última barreira da censura foi o nu,” lembra Gonçalo. “As revistas retocavam as fotos, apagavam mamilos. As mulheres pareciam mutiladas”.

Ao lado de ‘Janis Joplin só queria sambar’, que narra a passagem da cantora pelo Brasil em 1970, a obra forma um díptico sobre artistas estrangeiras confrontando o moralismo da ditadura. “São duas estrelas internacionais que vieram ao Brasil durante o regime e acabaram vítimas da mesma paranoia moral,” resume o autor.

No fim das contas, Gonçalo vê seu livro como uma ferramenta de memória e reflexão. “É mais um trabalho para desmistificar a ditadura. Foram 21 anos de censura, medo e repressão. E essa história da Sylvia Kristel é tão bizarra e esquecida que merecia ser contada”. O livro está disponível no site da Editora Noir e nas principais livrarias.