
“Lugar de fala”, instigante reflexão proposta pela filósofa e escritora Djamila Ribeiro, não tem a ver com calar alguém. “Todo mundo pode falar sobre tudo. O importante não é o que se fala, mas de onde se fala”, afirma a autora. O fato é que o conceito se popularizou. Djamila conquistou novos espaços, tornou-se uma intelectual influente e viveu um longo período como professora e conferencista em universidades nos EUA, França, Alemanha e Portugal. De volta ao Brasil, ela relança uma versão ampliada de “Lugar de Fala” e conta com os auxílios luxuosos da escritora portuguesa Grada Kilomba (apresentação) e da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (prefácio). Em 25 de junho, em Santos para uma aula magna na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e muitos autógrafos, Djamila conversou com o Jornal da Orla.
O que mudou na nova edição e no seu modo de pensar lugar de fala?
A primeira edição foi em 2017 e o livro se tornou um best-seller. Com a popularização vieram muitas simplificações ao conceito, o que eu acho que faz parte também. Tem um ponto positivo, porque pelo menos saiu do círculo acadêmico, acabou se tornando um vocabulário na nossa sociedade. E como você disse muito bem, o lugar de fala não é o que se fala, mas de onde se fala. É a gente marca o lugar social, até para que a gente possa entender a origem social das desigualdades, até para que a gente possa entender por que não tem tantas pessoas negras, por exemplo, como referência bibliográfica. Quando a gente entender esse lugar social, um lugar marcado por desigualdade, a gente vai compreender por que essas produções não estão como deveriam estar. Marcar é importante para reconhecer as opressões, os privilégios, para que a gente também não os naturalize, porque as pessoas vão acreditar que os seus privilégios são naturais e não construídos à base de opressão de outros grupos. Nessa nova edição, agora publicada pela Record, eu trago capítulos novos, porque foram quase 10 anos desde a primeira publicação, muitos debates surgiram. Então é um encontro entre a autora de 2017 e a de agora, mediada por essas transformações sociais que aconteceram na última década.
O que é lugar de fala, a partir de toda essa nova vivência?
Eu não mudei o conceito, eu ampliei, porque, por exemplo, na edição nova, estou pensando no lugar de fala no jornalismo, no marketing de influência, na teoria feminista. Acho que não é uma revisão pontual, mas sim uma ampliação substancial de como é possível pensar o lugar de fala também em outras frentes.
Em suas experiências acadêmicas nos EUA e na Europa, o que viu lá que difere daqui?
É bom pensar lugares de fala no sentido de saber por que as produções ainda legitimam como centralidade o pensamento hegemônico europeu. Nessas experiências lá fora, uma coisa que eu prestei atenção foi que a nossa formação é excelente no Brasil e como nós desmerecemos o nosso país. Nossa formação educacional não deve nada. Eu cheguei lá para dar aula e muitas vezes eu me sentia um pouco assustada, porque nos EUA há uma produção muito centrada no próprio EUA. Na Europa, é muito centrada na Europa. O quanto eles desconhecem as produções que vêm da América Latina, de África, dos países asiáticos. A gente chega com uma visão muito mais rica de entendimento do mundo, porque no Brasil a gente tem mais acesso a essas visões. Lá, claro, tem uma estrutura diferente, que infelizmente no Brasil a gente ainda não tem, como maior investimento em pesquisa, bibliotecas… É o lado positivo. Mas eu acho que no Brasil a nossa formação não deve nada e a gente deve pensar e valorizar as produções daqui. Estudei filosofia, e só o pensamento europeu. Quando eu quis estudar o pensamento africano, eu ouvia professores dizerem que isso não existia. Então, o Brasil também acaba reproduzindo esse pensamento hegemônico; precisa trazer mais as produções do Sul global.
Universidades públicas, cursinhos populares e as cotas sofrem constantes ataques. Como você vê essa questão?
Acho que isso acontece justamente porque nós avançamos. São recentes essas mudanças no Brasil: a ampliação de políticas públicas, a expansão das universidades públicas, a adoção de políticas afirmativas. Isso mudou a cara da universidade, trouxe grupos que historicamente não tinham acesso e, claro, quem estava no poder se incomoda com esse avanço. A gente está tendo uma reação a avanços nos últimos anos. Eu mesma sou fruto dessas políticas de expansão das universidades públicas. Eu estudei num campus da Unifesp que foi fundado em 2007, da turma de 2008, foi onde eu me graduei, fiz o meu mestrado, já mais velha, com 27-28 anos que entrei na faculdade. Fui a primeira da minha família a ter acesso à universidade por conta de políticas públicas. Então, quem sempre esteve no lugar do privilégio se incomoda e a gente vê esses ataques. Mas acho importante reconhecer que os ataques acontecem porque avançamos, porque a universidade começou a mudar de cara. E cabe seguir lutando, não tem outro caminho. Veja esse episódio da polícia ser chamada para dentro da escola para questionar uma diretora por conta de uma representação de Iansã. A gente percebe o quanto as produções negras, as religiões afro são demonizadas. As pessoas não veem problema em estudar mitologia grega, mitologia romana, mas quando estudam a mitologia iorubá, colocam nesse lugar da demonização a ponto de chamar policiais, sendo que a diretora simplesmente está seguindo a Lei 10.639, que inclui a história africana e afro-brasileira nas escolas. A gente ainda tem muito para avançar.
Com frequência, intelectuais negros e negras são convidados para falar somente sobre racismo, por mais competentes que sejam em diversas áreas. Isso incomoda você?
Existe essa questão de fixar as pessoas negras em determinados lugares e achar que a pessoa tem que abordar determinados temas. Mas, para mim, é uma escolha política também, como feminista que sou, de falar de várias autoras, de falar desses temas. E eu não me canso porque também falo de outros assuntos em outros espaços. Mas acho que excluir a discussão racial, por exemplo, da questão educacional, não faz sentido, porque não tem como a gente falar de educação no nosso país sem falar da produção das pessoas negras. Eu acho que a gente fala de raça e de gênero como coisas específicas e não entende que falar desses temas é de falar de estruturas. Então, quando estou falando de habitação, estou falando da questão racial, se a maior parte da população em situação de rua é negra. Se falo de política habitacional, estou falando da questão das mulheres, porque se coloca a escritura na mão das mulheres. O problema é que a gente trata como questão identitária – visão equivocada – e não percebe que está falando de projeto de poder.


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