Cena

Documentário sobre Cine Roxy será exibido em circuito internacional

15/02/2026 Isabela Marangoni
Divulgação

Icônico, resistente e profundamente entranhado na memória afetiva de Santos, o Cine Roxy agora projeta sua história para além das fronteiras brasileiras. O documentário Fábrica de Sonhos, dirigido por André Azenha e Wanderley Camargo, foi selecionado para a 5ª Autêntica Mostra Cinemas do Brasil – Reminiscências do Passado Histórico.

A mostra reúne 22 filmes dedicados aos cinemas de rua, seus personagens e às ações cineclubistas como formas de resistência cultural. As exibições começam em março de 2026 e percorrem México, El Salvador, Nicarágua e Brasil. A seleção marca a primeira participação oficial do longa em um evento internacional.

Memória
A ideia do documentário surgiu em 2024, durante as comemorações dos 90 anos do Cine Roxy. Em março daquele ano, a pré-estreia nacional de Evidências do Amor, com a presença de Fábio Porchat abriu as celebrações. “Foi a primeira exibição do filme no Brasil, antes mesmo de São Paulo e Rio de Janeiro. Ali já dava para perceber a força do Roxy”, relembra Azenha.

Inicialmente, o projeto seria um livro — o título já estava definido: Fábrica de Sonhos. Mas a proximidade das comemorações acelerou a decisão de transformar a pesquisa em documentário.

Azenha convidou o professor do curso de Cinema da Universidade Católica de Santos (Unisantos) e cineasta Wanderley Camargo para dividir a direção. O filme nasceu sem orçamento e com apenas um mês e meio de produção. “Não tínhamos dinheiro, mas tínhamos acervo, contatos e história. Foram 13 anos trabalhando no Roxy, mais de 300 pré-estreias nacionais e internacionais”, afirma Azenha.

Produção colaborativa
Realizado de forma colaborativa, o documentário mobilizou alunos, voluntários e parceiros locais. Equipamentos foram cedidos pela Flip Filmes, o CineZen colaborou na produção, e outras parcerias garantiram alimentação e logística. “Foram quatro sábados gravando depoimentos dentro do cinema. Todo mundo entrou por amor”, resume Wanderley.

Mais de 20 pessoas participam do filme — nenhuma recusou o convite. O que reforça a dimensão simbólica do espaço. “O Roxy não é apenas um cinema. É um lugar de memória, quase um templo cultural para o santista”.

O primeiro corte foi exibido na festa de 90 anos, em novembro de 2024, com sessão lotada. Desde então, passou pelo Santos Film Fest, pela Semana de Comunicação da Unisantos e pela Cinemateca de Santos.

O documentário rompe com a linearidade cronológica e começa pelo momento mais delicado da história recente: a pandemia. Ameaçado de despejo e à beira do colapso, o Roxy enfrentou seu maior risco. “Começamos pelo fundo do poço porque o filme fala de resistência”, explica Wanderley. “O Roxy só sobreviveu porque tem o DNA de Santos”.

A mobilização da cidade — artistas, público e imprensa — foi decisiva para manter as portas abertas.

A narrativa se constrói em dois planos: os bastidores, conduzidos por Toninho Campos, diretor e proprietário do cinema, em uma sala escura e silenciosa; e a memória coletiva, composta pelos relatos de frequentadores, artistas e parceiros, em ambientes mais luminosos. “O Toninho conta o que ninguém sabia. As pessoas contam o impacto do Roxy na vida delas”.

Pedidos de casamento, primeiras sessões, lembranças de infância e descobertas artísticas transformam o prédio em personagem. “Quando alguém diz que a primeira memória afetiva da vida foi no Roxy, ele deixa de ser prédio. Vira companhia”.

Muito além da tela
O filme também contextualiza o papel urbano do cinema. Primeiro a deixar o Centro e se instalar no Gonzaga, ainda nos anos 1930, o Roxy ajudou a consolidar a chamada Cinelândia Santista. Em determinado momento, Santos chegou a ter o maior número de salas de cinema per capita do Brasil.

A obra revisita ainda a relação do espaço com a música. Toninho foi responsável por trazer bandas como Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Titãs e Ira! nos anos 1980, antes mesmo de chegarem à capital paulista. “Cinema e música sempre caminharam juntos na vida dele e na vida do santista”, afirma Wanderley.

Para Azenha, Toninho transcende o papel de exibidor. “Ele foi fundamental para o rock brasileiro, para o surf, para o audiovisual. Santos virou referência nacional também por causa dele”.

O documentário amplia o olhar para projetos sociais e culturais que passaram pelo Roxy, como o GAPA, o Projeto TAMTAM, a Casa da Esperança, o Arte no Dique e as sessões adaptadas do Cinema Azul.

Símbolo santista
Entre as cenas mais marcantes está a imagem final de Toninho caminhando sozinho pelo corredor do cinema. “Ele é o Roxy. Aquela imagem simboliza um legado que vai durar além dele”, diz Wanderley.

Hoje, o Roxy é percebido quase como um equipamento público da cidade — um espaço cultural que ultrapassa a lógica comercial e assume dimensão comunitária.

A seleção para a mostra internacional reforça essa trajetória. “Existe um movimento internacional de preservação dos cinemas de rua. O filme se soma a isso”, afirma Azenha. “É a primeira seleção oficial e faz todo sentido”.

Mais do que um documentário sobre um cinema, Fábrica de Sonhos é um filme sobre uma cidade, sobre memória e sobre a resistência cultural que mantém acesa a luz do projetor — mesmo quando tudo parece escuro.