
Quase cinquenta anos de história contados por quem vive no território. Esse é o ponto de partida do mini-documentário “Memórias da Vila Esperança”, produção que reúne relatos de moradores para reconstruir a trajetória do bairro, em Cubatão, sob a ótica da própria comunidade.
O filme integra o programa Movimenta Baixada, da Rumo Logística, em parceria com o Museu da Pessoa, e será exibido no sábado (28), a partir das 15h, na Praça dos Imigrantes, em sessão gratuita ao ar livre. Após a estreia, o documentário também ficará disponível no YouTube e no acervo do museu.
Localizada próxima à Rodovia dos Imigrantes, a Vila Esperança reúne cerca de 20 mil moradores e ainda enfrenta desafios de infraestrutura e acesso à informação. Para os organizadores, registrar a memória local é uma forma de fortalecer vínculos e identidade coletiva.
Segundo a diretora de Responsabilidade Social da Rumo Logística, Silvia Azuma, a região tem importância estratégica por concentrar o principal acesso ferroviário ao Porto de Santos, o que motivou a empresa a estreitar relações com a comunidade do entorno. “Ali passa uma grande quantidade de trens e sentimos a necessidade de estar mais próximos. Nossa ambição é apoiar o desenvolvimento socioeconômico dessas regiões e construir uma relação harmônica com o entorno”, afirma.
Memória coletiva
A iniciativa nasceu de diagnósticos sociais realizados em 2023 em Cubatão e São Vicente, que revelaram tanto desafios sociais quanto um forte desejo de reconhecimento comunitário. “Muitos moradores vieram do Nordeste e se identificam mais com o bairro do que com a cidade. Eles querem ser reconhecidos e ter voz”, explica Silvia.
Foi nesse contexto que surgiu a parceria com o Museu da Pessoa, instituição dedicada ao registro de histórias de vida como patrimônio coletivo.
Segundo Eduardo Valente, responsável pela mobilização de recursos da instituição, o trabalho vai além de entrevistas tradicionais. “Nós registramos histórias de vida. A primeira pergunta não é sobre opinião, mas sobre origem: onde a pessoa nasceu, qual é sua primeira memória. A ideia é democratizar a memória e mostrar que toda história importa”.
Ao todo, foram gravados depoimentos de 14 moradores, com cerca de três horas de duração cada. Desse material nasceu o documentário de 17 minutos, estruturado como uma narrativa coletiva do bairro. “Se já tínhamos a memória individual como protagonista, pensamos: como transformar isso em memória coletiva? Foi daí que surgiu o filme”.
Migração e pertencimento
Durante o processo, encontros e oficinas reuniram moradores para identificar marcos históricos da comunidade e personagens representativos. “Se você faz um projeto de memória sem a comunidade, ele vira qualquer coisa menos memória. Quando eles participam, o resultado revela como o próprio território se enxerga”, afirma Eduardo.
Um dos aspectos que mais marcou a equipe foi o sentimento de pertencimento. Mais de 80% dos moradores têm origem nordestina. “Valorizar a Vila Esperança é valorizar uma comunidade inteira de nordestinos que reconstruíram suas vidas ali”, diz.
Silvia também destaca histórias de migração e empreendedorismo. “Muita gente chegou sem nada. Hoje vemos moradores empreendendo, crescendo e conectando outros a oportunidades. Participar desse processo é muito gratificante”.
Cinema ao ar livre
O lançamento será realizado em formato de cinema ao ar livre na Praça dos Imigrantes, espaço recentemente revitalizado. A programação inclui atividades para crianças, brinquedos, pipoca e algodão doce, com a exibição prevista para o início da noite. “É um momento de celebração. Queremos que eles se vejam e percebam que construíram algo juntos”, afirma Silvia.
A divulgação tem sido feita principalmente de forma presencial, com bike de som, panfletagem e mobilização local. “Como o bairro é grande e ainda há áreas com acesso limitado à informação, o corpo a corpo continua fundamental”.
Cultura contra o estigma
Para os organizadores, o impacto do projeto vai além da exibição do filme. A proposta é contribuir para o reconhecimento simbólico do bairro e enfrentar o estigma que ainda marca a região. “A Vila Esperança ainda é vista como perigosa, e muitos moradores se sentem marginalizados. Queremos mostrar que é uma comunidade potente, capaz de muito mais do que dizem sobre ela”, afirma Silvia.
Segundo Eduardo, iniciativas de memória geram efeitos duradouros. “Elas não transformam tudo de imediato, mas iniciam processos. Quando as pessoas se veem como parte de algo maior, passam a acreditar mais nelas mesmas e no coletivo”.
Identidade como transformação
O documentário integra um conjunto mais amplo de ações sociais na região, que incluem capacitação profissional, projetos educacionais, formação digital para jovens e programas de inclusão produtiva.
Entre as iniciativas estão cursos em parceria com entidades sociais, formação técnica e até um jogo educativo sobre educação financeira e funcionamento da ferrovia. “A ideia é que as pessoas se capacitem e encontrem novas oportunidades no mercado de trabalho”, explica Silvia.
Ainda assim, o filme ocupa um lugar simbólico especial por trabalhar diretamente com identidade e pertencimento. “Esperamos que os moradores sintam orgulho de pertencer à Vila Esperança e percebam o processo de transformação em curso”, diz Eduardo.
Para ele, o objetivo final é simples. “Que eles se divirtam com a própria história. Que seja um momento de encontro, inclusão e reconhecimento de um bem comum: a história da Vila Esperança”.


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