
A 3ª edição do Dia do Enfrentamento, mostra realizada pelo Instituto Bordallo Cultural, amplia sua presença na Baixada Santista e leva atividades gratuitas a três territórios: Vila dos Criadores, Vila Gilda e Vila Pantanal. O evento acontece neste domingo (23), das 10 às 18 horas, e celebra a força, a resistência e o protagonismo das mulheres por meio da dança, da música, do circo e da contação de histórias.
“Nosso trabalho é fortalecer a rede entre mulheres dos territórios da Baixada. A mostra surgiu do espetáculo Escolhas, da Juliana Bordallo, que fala sobre violência de gênero e abriu caminho para esse movimento”, explica Lelê Lótus, palhaça e percussionista. A iniciativa, destaca ela, nasce do acúmulo de vivências em arte, educação e convivência comunitária. “É um grande convite ao encontro, para que a gente se fortaleça a partir das nossas dificuldades”.
Descentralização
Após duas edições realizadas em espaços como a Concha Acústica e o Teatro de Arena Rosinha Mastrângelo, a mostra agora se espalha pelas comunidades. “Este ano decidimos descentralizar. É um convite em vários lugares diferentes, com coisas diferentes acontecendo, para agregar mais gente e permitir mais acesso às mulheres”, afirma Lelê.
A escolha dos locais dialoga com os 16 territórios onde o Instituto já atua com projetos de arte e educação voltados às mulheres e às infâncias. “Os espaços foram definidos dentro da ideia de território, conversando e trocando com as pessoas desses lugares”.
Conscientização
Falar sobre violência de gênero, reconhece Lelê, exige sensibilidade. Por isso a arte ocupa lugar central na proposta. ”É difícil para qualquer mulher ouvir sobre violência, porque ela atravessa tudo. A arte oferece um caminho mais bonito e amplo para tratar do tema, sem aprofundar a dor, mas fortalecendo para que não aconteça de novo”.
Além das apresentações, cada parada da mostra contará com rodas de conversa para reconhecer, nomear e prevenir situações de violência. “Às vezes estamos vivendo violência e nem sabemos. Não é palestra: é conversa, é olhar para a outra e perceber que aquilo não é normal”.
Programação
As atividades começam na Vila dos Criadores, às 10 horas, com uma oficina de dança de forró com Nanyh Montingeli, seguida, às 11h, pelo espetáculo circense “Berinjela, a Grande”.
À tarde, a Vila Gilda recebe, às 14 horas, a contação de histórias com Camila Genaro, e às 15 horas, a oficina de pandeiro com Lelê Lótus, conectando ritmo, ancestralidade e expressão feminina. “Todo mundo tem ritmo. Minha ideia na oficina é mexer com o imaginário e mostrar que as mulheres podem tocar, não só cantar. Somos pouco estimuladas a pegar instrumentos, e isso também é liberdade”, afirma. “Tocar é um modo de relaxar dentro do turbilhão que todas vivemos”.
Encerrando o dia, a Vila Pantanal será palco, às 17 horas, do show musical do grupo As Fuás, acompanhado de uma oficina de forró com Nanyh Montingeli, em um encontro de celebração e alegria coletiva.
A curadoria levou em conta os desejos e características de cada comunidade. “O importante não era só levar arte, mas algo que conversasse com aquele território e fosse bacana para todo mundo”.
Fortalecimento da cena feminina
A mostra também reafirma a atuação das mulheres na produção cultural da região. “Nossa equipe é majoritariamente feminina. Isso por si só já é fortalecimento — mostra que existe lugar para nós e que conseguimos nos movimentar”, diz Lelê.
Ela destaca ainda a importância de criar referências e abrir caminhos. “Construímos espaços onde as mulheres possam representar e se sentir representadas. É uma forma de descentralizar a ideia de que todas precisam trabalhar do mesmo jeito”.
A circulação pelos territórios amplia ainda mais esse impacto. “Levar arte onde ela não chega é essencial. Nem sempre as mulheres conseguem se deslocar, pegar ônibus, levar filhos. Quando abrimos a porta da casa delas e a primeira praça tem um teatro ou uma palhaça, isso muda tudo. É uma política muito mais inteligente: já que você não pode ir até mim, eu vou até você”.
Transformação e futuro
O objetivo central da mostra, reforça Lelê, é contribuir para a redução da violência de gênero. “Queremos que as mulheres percebam que aquilo que vivem pode ser melhor. Que tenham liberdade — emocional, financeira, cotidiana”.
A arte, mais uma vez, aparece como caminho para transformar o enfrentamento à violência em diálogo, acolhimento e expressão coletiva. O evento é gratuito e aberto ao público, convidando toda a comunidade a viver um dia de arte, empatia e resistência. ”Vai ter coisa mágica e maravilhosa acontecendo. Queremos que todas as mulheres sejam libertas e vivam uma vida plena”, convida. “Fortalecer as mulheres dessas regiões é essencial para nós”.


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